Economista explica insatisfação com economia apesar de bons indicadores

Economista Laura Carvalho explica por que brasileiros se sentem insatisfeitos com a economia, mesmo com bons indicadores. Fatores incluem redes sociais, inflação e frustração de jovens.

Economista explica insatisfação com economia apesar de bons indicadores

Apesar de indicadores econômicos positivos no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como o desemprego em mínimas históricas (5,6% em maio) e um crescimento acima do esperado (3,2% em 2023), uma parcela significativa da população brasileira expressa insatisfação com a economia. Uma pesquisa recente da Genial/Quaest mostrou que 44% dos entrevistados consideram que a economia piorou nos últimos 12 meses.

Para desvendar esse paradoxo, a economista Laura Carvalho, professora da FEA-USP e membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, lançou o artigo "Paradoxos do Lulismo: a desconexão entre resultados macroeconômicos e percepção sobre a economia". Em coautoria com Guilherme Klein Martins, da UFRJ, o estudo aponta quatro fatores principais para esse descompasso.

## Impacto persistente da inflação e redes sociais

Um dos elementos centrais destacados pela economista é o impacto persistente da inflação, que afeta o bem-estar das famílias. Além disso, Carvalho enfatiza a mudança nos desejos de consumo, amplificada pelas redes sociais. "Com as redes sociais, as pessoas têm acesso ao padrão de consumo de classes muito mais ricas, de forma muito mais fácil", explica Carvalho em entrevista à BBC News Brasil. Essa exposição constante a estilos de vida de alto padrão, muitas vezes distantes da realidade de renda da maioria, gera uma "sensação de insatisfação" generalizada.

## Comparativo com os anos 2000 e frustração geracional

O estudo também compara a situação atual com o período dos dois primeiros mandatos de Lula, quando um expressivo crescimento econômico e a distribuição de renda incluíram milhões de brasileiros no mercado consumidor. Carvalho observa que, naquela época, o acesso a bens como geladeiras e viagens de avião representou um salto de qualidade de vida, mas o padrão de consumo almejado hoje é diferente e mais elevado.

Outro fator crucial é a frustração de uma geração escolarizada que, apesar de possuir formação superior, não encontra empregos compatíveis com suas qualificações. Essa dificuldade em ascender profissionalmente contribui para o sentimento de desalento econômico.

## Propostas para um novo ciclo de prosperidade

Laura Carvalho, que também é diretora da Open Society Foundation e autora do livro "Valsa Brasileira", defende uma agenda para recolocar o país em um novo ciclo de prosperidade. Isso inclui a expansão de serviços públicos e a diversificação da economia para gerar empregos qualificados. A economista também ressalta a importância de avançar na tributação, com propostas como a taxação de riqueza, que poderiam mitigar a perpetuação da desigualdade.

Carvalho critica o alto custo distributivo da dívida pública, que, segundo ela, beneficia detentores de alto patrimônio com juros elevados, transferindo renda para os mais ricos e perpetuando a concentração de riqueza e influência no sistema político.