Brasil: Gigante adormecido em terras raras clama por exploração

Brasil é um gigante adormecido em terras raras, com 25% das reservas mundiais, mas explora menos de 1%. Analistas apontam a necessidade de investimentos e papel do governo para destravar o potencial estratégico do país.

Brasil: Gigante adormecido em terras raras clama por exploração

O Brasil ostenta a segunda maior reserva mundial de terras raras, um conjunto de 17 elementos químicos essenciais para tecnologias de ponta, como inteligência artificial, defesa e energia limpa. Apesar desse potencial geológico expressivo, o país se encontra em um paradoxo: é um "gigante adormecido" no setor, explorando menos de 1% do mineral extraído globalmente, enquanto a China domina a produção com 70%.

Philipe Moura, diretor de estratégia da Eurasia, destacou em entrevista que a atual ordem geopolítica fragmentada e os riscos na cadeia de suprimentos tornam os minerais críticos, como as terras raras, cada vez mais valiosos. "Sem eles, a gente não tem chip, não tem inteligência artificial", ressaltou Moura, sublinhando a importância estratégica desses elementos para o desenvolvimento tecnológico e a segurança nacional.

O contraste entre a riqueza geológica brasileira e sua pífia capacidade produtiva é gritante. Enquanto o Brasil detém cerca de um quarto das reservas mundiais, sua participação na extração é insignificante. A China, por sua vez, concentra 50% das reservas e domina a produção global. Essa discrepância leva Moura a classificar o país como um "gigante adormecido" no segmento.

Os obstáculos para o desenvolvimento da exploração de terras raras no Brasil são múltiplos. A principal barreira, segundo o analista, é a falta de cadeias produtivas economicamente autossustentáveis para extração e refino em larga escala. Para viabilizar o setor, seria necessário um ciclo de investimentos de longo prazo, estimado entre cinco e dez anos, com capital de risco elevado.

Moura defende a integração entre setor público, privado e academia como fundamental para destravar esse potencial. Ele aponta a existência de um laboratório de tecnologia de terras raras para ímãs no hemisfério sul, próximo a Belo Horizonte, como um ponto de partida promissor. O governo, na visão do especialista, deve agir como um "grande indutor", garantindo segurança jurídica e atraindo investidores internacionais.

O interesse estrangeiro no segmento brasileiro já é notado, inclusive de países "não óbvios", segundo fontes diplomáticas. No entanto, o cenário eleitoral no Brasil pode gerar incertezas, impactando a definição de políticas nacionais e a tramitação de projetos de lei no Congresso. A posição geopolítica do Brasil, contudo, se torna mais vantajosa à medida que o mercado busca alternativas à dependência chinesa.

Negociações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos também sinalizam um potencial acordo no setor, acompanhado de perto pelo mercado. A exploração das terras raras no Brasil, portanto, não é apenas uma questão econômica, mas também um componente crucial na reconfiguração das cadeias globais de suprimentos e na geopolítica mundial.