Bets Escondem Dados de Anúncios na Copa em 'Caixa Preta'

Casas de apostas online usam 'caixa preta' em anúncios na Copa, sem revelar gastos ou público. Entidades e órgãos de defesa do consumidor criticam a falta de transparência.

Bets Escondem Dados de Anúncios na Copa em 'Caixa Preta'

Um levantamento aponta que as dez maiores casas de apostas online no Brasil intensificaram suas campanhas publicitárias nas redes sociais da Meta (Facebook e Instagram) durante o período pré e durante a Copa do Mundo. No entanto, os dados sobre os valores investidos e o alcance dessas publicidades não foram divulgados, caracterizando o que especialistas e entidades de defesa do consumidor chamam de "caixa preta".

A falta de transparência impede a verificação independente sobre a efetividade das campanhas em atingir o público-alvo correto, especialmente no que diz respeito à exclusão de menores de 18 anos, conforme exigido pela legislação. A ausência de detalhes demográficos e financeiros também dificulta o monitoramento da atuação dessas empresas junto a públicos considerados vulneráveis.

Associações como a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC) criticam a opacidade dos dados. Dayana Rosa, pesquisadora em saúde mental do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), e Filipe Detrey, especialista em marketing digital, classificam a prática como preocupante.

Embora a legislação brasileira não obrigue a divulgação desses dados, a Meta possui um sistema que permite a checagem de informações sobre anúncios de relevância social, como os de políticos e ONGs, e de algumas empresas privadas que optam por maior transparência. Contudo, as casas de apostas pesquisadas não aderiram a essa prática.

A investida publicitária das bets ocorre em um momento de crescente debate sobre o impacto do jogo online no Brasil, com críticas de entidades e sinalizações do governo federal para o aumento de restrições.

Dados do Ministério da Fazenda indicam que a receita bruta das bets legalizadas no Brasil atingiu R$ 37 bilhões em 2025, consolidando o país como o quinto maior mercado do setor no mundo. Nos primeiros quatro meses de 2026, o faturamento foi de R$ 12,2 bilhões, com pelo menos 25 milhões de apostadores cadastrados.

O Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IBJR) afirmou que recomenda aos associados o cumprimento da legislação, mas não comentou os anúncios específicos. Já a Associação Nacional do Jogo Legal (ANJL) defendeu que a divulgação de dados é uma decisão das próprias empresas, classificando-os como "estratégicos do negócio", e que o aumento da publicidade na Copa é "natural".

A Meta declarou que exige provas de licenciamento para anunciantes de jogos de azar e que pode restringir conteúdos que violem a legislação local, mas não abordou diretamente a ausência de dados demográficos e financeiros nas campanhas das bets. A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) informou que intensificou o monitoramento da publicidade de apostas durante a Copa do Mundo devido ao aumento expressivo.