Zadie Smith em Paraty: Identidade, Legado e a Arte de Ser Escritora
Zadie Smith discute em Paraty sua carreira, a liberdade criativa impulsionada por "Dentes Brancos", e a complexidade da identidade e pertencimento, além de refletir sobre a imagem pública.

Zadie Smith, uma das figuras centrais da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), encerrou a programação de sábado (25) com uma palestra que atraiu um público expressivo. Na Tenda da Matriz, a escritora britânica compartilhou reflexões sobre sua trajetória literária, suas obsessões temáticas e a intrincada relação com a própria imagem pública, em uma conversa mediada por Julianne Borges.
Smith, que manteve um período de reclusão em Paraty, longe dos holofotes e da imprensa, revisitou o impacto de seu aclamado romance "Dentes Brancos", obra que definiu o início de sua carreira e foi reconhecida como um dos 100 melhores livros do século XXI pelo New York Times. O livro, que aborda a colonização britânica e a diversidade multicultural da Inglaterra contemporânea, serviu como um ponto de partida para a autora.
## Obsessões Literárias e Liberdade Criativa
Ao falar sobre o processo criativo, Smith expressou a convicção de que escritores tendem a revisitar os mesmos temas ao longo de suas carreiras, explorando-os sob diferentes perspectivas. "Eu sinceramente acho que os escritores escrevem o mesmo livro repetidamente, mas com variações diferentes. E eu não me importo com isso", afirmou. Ela confessou que o sucesso comercial de "Dentes Brancos" lhe proporcionou a liberdade necessária para aventurar-se em projetos mais ousados e experimentais. "Graças a ele posso escrever todos esses ensaios estranhos, romances históricos e coisas que talvez ninguém queira, mas que, para mim, são o mesmo grupo de perguntas que estou me fazendo sobre meu país, sobre as duas partes da minha herança", explicou.
A autora demonstrou gratidão pela obra que lançou sua carreira, mas ressaltou a evolução pessoal e artística. "Tenho apenas algumas obsessões, e você tem sorte se tiver algumas obsessões e conseguir encontrar uma série de maneiras de expressá-las. Quando penso em 'Dentes Brancos', sinto gratidão pela garota que o escreveu e tornou minha vida possível. Mas com certeza não sou mais aquela garota", declarou.
## Identidade, Nacionalidade e a Distância Necessária
Após uma década vivendo em Nova York, Zadie Smith retornou a Londres em 2020. A experiência de viver no exterior moldou sua visão sobre nacionalidade e pertencimento, que descreveu como "meio complicada". A autora ponderou sobre a natureza do pertencimento, que implica aceitar as narrativas do Estado, e destacou o valor da distância geográfica para uma percepção mais crítica. "Acho que a coisa boa de estar no exterior por tanto tempo é ter uma certa distância. Algumas coisas se tornam engraçadas", comentou, citando o absurdo percebido em notícias sobre a realeza britânica quando vista de fora.
Suas viagens à África também foram um fator crucial no desenvolvimento de sua escrita, especialmente ao confrontar a percepção de ser vista como "turista" em terras de sua ancestralidade. Essa dualidade a levou a explorar a sensação de um pertencimento incompleto, moldado pela história e pela distância. "É interessante perceber que nossa identidade é uma mistura do que sabemos sobre nós mesmos e do que os outros projetam na gente. Você não tem controle sobre isso o tempo todo", refletiu.
## A Imagem Pública e a Autenticidade
Smith abordou a pressão de construir e manter uma imagem pública, especialmente como figura literária de destaque. Citando Virginia Woolf, ela compartilhou sentimentos conflitantes sobre a vaidade e a dedicação à aparência, contrastando com seu desejo primordial de ler e escrever. Contudo, com o tempo, a escritora passou a questionar a ideia de que mulheres inteligentes deveriam se desvincular de preocupações com beleza e estilo, percebendo nisso um viés misógino.
"É claro, a mensagem oculta nessa ideia é a de que uma mulher bonita não precisa ser inteligente. Por que ela se importaria? Ela já tem todo o capital de que precisa no mundo. Isso, por si só, é uma ideia muito sugestiva", ironizou. Revelou ainda um "problema" com a moda, dada a transição entre o cotidiano de calças de moletom e a necessidade de se vestir de forma mais elaborada para eventos noturnos, admitindo a falta de um "meio-termo" em seu guarda-roupa.