Zadie Smith critica 'personagens perfeitas' em evento literário
Zadie Smith critica personagens perfeitas na Flip 2026, discute influência de autoras negras e sua visão sobre identidade e pertencimento em diálogos com Juliana Borges.

A renomada escritora britânica Zadie Smith marcou presença na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2026, onde participou de um debate instigante. Em entrevista conduzida por Juliana Borges na Mesa 18, intitulada "este chão não existe, e esta paz é vertigem", Smith abordou uma gama de temas relevantes, desde a representação da negritude na literatura até sua própria percepção sobre identidade e pertencimento.
## O Peso da Perfeição e a Influência Negra
Um dos pontos centrais da conversa foi a crítica de Zadie Smith à idealização de personagens, especialmente mulheres negras. Ela expressou que a criação de figuras excessivamente perfeitas pode ser "opressiva", pois não reflete a complexidade humana. "Uma pessoa perfeita, uma postura política ideal ou uma vítima perfeita, nenhuma dessas coisas. Eu preciso pensar em mim mesma como ser humano", afirmou. A autora destacou a admiração por qualidades como gentileza, sabedoria e capacidade de perdoar em personagens. Smith também ressaltou a profunda influência de escritoras negras como Toni Morrison, Alice Walker e, de forma particular, Zora Neale Hurston, cujas personagens são descritas como humanas e não caricaturas. A escritora comentou que a abordagem de Hurston sobre personagens negras, evitando estereótipos de força inabalável ou perfeição, foi particularmente inspiradora por apresentar figuras realistas e multifacetadas.
## Identidade, Diáspora e o Distanciamento Geográfico
Zadie Smith compartilhou reflexões sobre sua experiência em viagens à África, incluindo passagens pela Libéria, Gâmbia e Gana, durante o processo de criação de seu romance "Ritmo Louco". Ela descreveu a sensação de ser uma "turista" na diáspora, percebendo como a identidade pode ser fluida e influenciada pelo ambiente e pela percepção alheia. "Em um táxi eu sou libanesa, em outro, sou brasileira... É sempre interessante se dar conta de que a sua identidade é uma mistura entre os fatos que você conhece, mas também os que as pessoas criam de você", pontuou. A escritora também revelou ter uma "relação complicada com o pertencimento", valorizando o distanciamento geográfico que permite uma visão mais crítica e, por vezes, humorística sobre aspectos culturais e sociais. Como exemplo, citou a reação ao se deparar com uma manchete sobre o Duque de York em um jornal britânico ao retornar ao Reino Unido, algo que considerou um "absurdo" visto de fora, mas que talvez passasse despercebido para quem vive imerso na realidade local. A Flip 2026, realizada em Paraty, proporcionou um palco para essas discussões sobre representatividade, humanidade na ficção e a complexidade da identidade no mundo contemporâneo. O evento contou com transmissão ao vivo pelo YouTube, permitindo que um público mais amplo acompanhasse os debates.