Tuca: A Artista Esquecida da MPB Ganha Livro
Livro "Tuca: a cantora lésbica exilada da história" resgata a obra de Valeniza Zagni da Silva, artista paulistana que tocou com Chico Buarque e Françoise Hardy, mas foi esquecida pela MPB.

A história de Tuca, nome artístico de Valeniza Zagni da Silva, uma artista multifacetada que marcou a música brasileira e internacional, está sendo recontada no livro “Tuca: a cantora lésbica exilada da história”. Nascida em São Paulo em 1944 e falecida precocemente em 1978, aos 33 anos, Tuca teve uma carreira meteórica, mas que acabou sendo obscurecida por estereótipos e pela falta de reconhecimento de seu papel na MPB e na música pop.
## Trajetória Musical e Colaborações Internacionais
A trajetória de Tuca começou cedo na cena musical paulistana, ao lado de nomes como Chico Buarque, Toquinho e Taiguara. Sua habilidade com o violão, seu instrumento principal, e sua versatilidade musical a destacaram. Em 1968, lançou um elogiado LP pela Philips e participou da Semana de Arte Brasileira em Angola, ao lado de Gilberto Gil e do Jongo Trio. Com o endurecimento da ditadura militar no Brasil, Tuca buscou refúgio na França, onde continuou sua carreira.
Na Europa, Tuca colaborou com Nara Leão no álbum "Dez anos depois" (1971), onde realizou arranjos para clássicos da bossa nova. No mesmo ano, em Paris, trabalhou com a estrela francesa Françoise Hardy, atuando como parceira e diretora artística em "La question", disco considerado um marco do pop de vanguarda. Sua dedicação à música experimental e sua segurança em sua homossexualidade a levaram a gravar "Dracula, I love you", um disco conceitual que explorava o homoerotismo feminino através da metáfora do vampirismo. O trabalho foi gravado no renomado Château d’Hérouville, frequentado por artistas como Elton John e David Bowie.
## O Resgate da Memória e a Luta Contra o Esquecimento
O livro de Renato Gonçalves, publicado pela Ed. O Sexo da Palavra e parte da coleção Vidas Sequestradas, busca preencher lacunas na história da música brasileira, especialmente no que diz respeito a artistas LGBT. O pesquisador relata que, ao investigar a década de 1970, Tuca era frequentemente lembrada por sua aparência física ou por aspectos secundários de sua carreira, ignorando sua relevância como musicista completa.
“No seu tempo, isso foi atrapalhando o reconhecimento dela como uma grande musicista. Porque a Tuca era uma artista completa, em termos de composição e de interpretação”, afirma Gonçalves. Ele destaca a inteligência, o carisma, a irreverência e a poliglota Tuca como uma artista que encantava o público. A pesquisa também aponta o apagamento histórico de mulheres musicistas e a dificuldade na gestão do acervo de artistas que não tiveram descendentes diretos, uma questão especialmente sensível para a comunidade LGBT.
## Legado e Próximos Passos
A obra de Tuca, que inclui seu LP solo de 1968, o trabalho com Nara Leão e a colaboração com Françoise Hardy, tem sido gradualmente resgatada. Contudo, o mistério em torno de sua morte precoce, supostamente ligada a um regime alimentar radical, e a falta de uma gestão clara de seu legado musical são pontos que ainda geram interesse e investigações, como a que está sendo realizada pela produtora de podcasts Rádio Novelo.
O lançamento do livro na Feira Literária de Paraty (Flip) marca um passo importante para que Tuca ocupe o lugar de destaque que merece na história da música brasileira, celebrando sua arte e sua coragem em um período adverso.