Roda da Fortuna: A Loteria da Santa Casa do Rio

A Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro operou sua própria loteria, a 'Roda da Fortuna', antes da popularização de jogos como a Mega-Sena. A arrecadação financiava obras de assistência social e saúde.

Roda da Fortuna: A Loteria da Santa Casa do Rio

## Um Legado de Sorte e Solidariedade

Milhares de cariocas, há quase dois séculos, voltavam seus olhos para os jornais em busca de uma frase que prometia esperança: "Hoje anda a roda". Essa expressão, comum no Rio de Janeiro de outrora, anunciava o sorteio da "Roda da Fortuna da Misericórdia", a loteria operada pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. Muito antes da popularização das lotéricas e de jogos como a Mega-Sena, a instituição mantinha uma própria modalidade de sorteio, cujos bilhetes eram aguardados com grande expectativa por pessoas de todas as camadas sociais.

A arrecadação obtida com a venda desses bilhetes era fundamental para a manutenção das diversas atividades da Santa Casa. A instituição, que permanece ativa no Rio de Janeiro até os dias atuais, utilizava os fundos para sustentar seus hospitais, escolas e uma ampla gama de obras de assistência social. O jogo, concedido oficialmente pelo poder público e anunciado diariamente nos periódicos da época, movimentava a cidade e permitia que muitos sonhassem com a possibilidade de mudar de vida, adquirindo bilhetes inteiros ou frações deles.

## Documentos Comprovam a Operação da Loteria

A existência da "Roda da Fortuna da Misericórdia" pode surpreender muitos, mas é fartamente documentada em decretos oficiais e publicações históricas. Um exemplo notório é o Decreto nº 92, de 25 de outubro de 1839, que concedeu mais uma loteria à instituição. A palavra "mais" neste documento é crucial, pois indica que a Santa Casa já operava loterias anteriormente, demonstrando que a prática era consolidada e parte integrante do cotidiano carioca.

Um ato de 1837 já tratava da destinação dos recursos provenientes dessas extrações, confirmando que, quando o decreto de 1839 foi promulgado, a loteria já "girava" há algum tempo. Essa prática não apenas gerava receita, mas também fortalecia a ligação da instituição com a população, que via na loteria uma forma de contribuir para causas sociais e, ao mesmo tempo, tentar a própria sorte. Os jornais da época, como o Diário do Rio de Janeiro, frequentemente publicavam anúncios simples, mas eficazes, informando sobre os sorteios e a disponibilidade dos bilhetes em diferentes frações.

## Mais que um Hospital, uma Rede de Assistência

A dimensão da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro no século XIX ia muito além de suas funções hospitalares. Fundada em 1582, a irmandade administrava uma vasta rede de assistência. Além do atendimento médico, a instituição acolhia crianças, socorria os mais pobres, realizava sepultamentos gratuitos e promovia diversas outras obras de misericórdia em um período onde o Estado ainda não oferecia um sistema de seguridade social abrangente.

Assim, a "Roda da Fortuna da Misericórdia" não era apenas um jogo de azar, mas um mecanismo financeiro essencial para a continuidade de uma instituição que desempenhava um papel social vital na cidade. A operação de loterias era uma estratégia para garantir a sustentabilidade de suas atividades assistenciais, demonstrando a capacidade de adaptação e inovação da Santa Casa em diferentes épocas históricas.