Psicodelia Nordestina: Disco Raro de Lenine Ganha Nova Vida
Disco 'Caruá', de Paulo Rafael e Zé da Flauta, pérola da psicodelia nordestina com participação de Lenine, é relançado em streaming quase 50 anos após sua criação. Obra rara ganha nova vida.

O universo da psicodelia nordestina celebra o renascimento de 'Caruá', um álbum icônico lançado em 1980 pela dupla Paulo Rafael (1955-2021) e Zé da Flauta. Quase cinco décadas após sua criação, a obra, que contou com a participação do jovem Lenine em sua concepção, finalmente ganha acesso ao grande público através das plataformas de streaming. Esta é a primeira vez que o disco, considerado uma joia rara do gênero, é disponibilizado de forma oficial para o público em geral.
Originalmente, 'Caruá' teve uma tiragem limitada de apenas mil cópias, financiadas pelos próprios músicos. Na época, Paulo Rafael e Zé da Flauta integravam a banda de Alceu Valença, vivendo um período promissor no Rio de Janeiro, onde eram reconhecidos como músicos profissionais. Metade das cópias foi vendida durante os shows de Alceu, enquanto o restante foi distribuído entre jornalistas e amigos. Algumas cópias chegaram a ser levadas para Paris e Portugal, como relata Zé da Flauta.
## O Legado da Psicodelia Nordestina
Antes desta nova disponibilização, o acesso a 'Caruá' era restrito a arquivos piratas de baixa qualidade ou aos raros LPs originais que sobreviveram ao tempo. A versão atual, que passou por um minucioso trabalho de remixagem e remasterização, também foi relançada em formato vinil pela Três Selos/Rocinante. Este álbum é o único registro oficial assinado pela dupla.
Paulo Rafael, guitarrista fundamental na carreira de Alceu Valença até seu falecimento em 2021, e Zé da Flauta, com passagens pelo Quinteto Violado e pela SpokFrevo Orquestra, construíram uma trajetória musical rica. O encontro dos dois, ainda adolescentes, resultou na formação da banda Phetus em 1972, ao lado do cartunista Lailson Cavalcanti (1952-2021). O grupo, que explorava a fusão de rock com música medieval, foi um embrião importante para a cena "udigrudi" (underground) pernambucana.
## Influência e Contexto Histórico
A cena "udigrudi" de Recife foi celeiro de trabalhos influentes como "Paêbirú", de Zé Ramalho e Lula Côrtes, e da banda Ave Sangria. 'Caruá' se insere nesse contexto de efervescência criativa que também moldou os primeiros trabalhos de Alceu Valença. A ditadura militar, que havia retirado de circulação o primeiro disco do Ave Sangria, criava um cenário de censura, mas também de resistência artística.
A participação de Alceu Valença no festival Abertura, promovido pela Globo, foi crucial. Ele reuniu um time de músicos de vanguarda, incluindo Paulo e Zé, para acompanhá-lo. Essa colaboração marcou o início de uma fase mais roqueira e psicodélica para Alceu, cujos álbuns dos anos 70, como "Molhado de Suor" e "Espelho Cristalino", são frequentemente associados ao rock por críticos como Zé da Flauta, que o descreve como "o maior e mais original roqueiro do Brasil". A influência do jazz, com artistas como John Coltrane e Miles Davis, também permeou a experimentação da dupla, que frequentemente se reunia no apartamento do saxofonista Beto Saroldi para criar e ouvir música.