Perdas políticas viram literatura em debate na Flip
Escritores Milton Hatoum e Hisham Matar discutem na Flip como perdas políticas e desaparecimentos moldaram suas obras literárias, ressaltando o papel da literatura na memória e resistência.

## Memória e Ausência na Literatura
Os escritores Milton Hatoum e Hisham Matar compartilharam na 24ª edição da Flip, em Paraty, como transformaram as dores e as perdas políticas de suas vidas em matéria-prima para a literatura. As discussões, realizadas em um formato híbrido com Matar participando remotamente de Londres, focaram no poder da escrita para resgatar memórias e lidar com o luto em contextos de repressão.
Hatoum abordou as experiências de desaparecimentos durante a ditadura militar brasileira, enquanto Matar relatou o sequestro de seu pai pelo regime de Muammar Gaddafi na Líbia. Ambos os autores exploraram como a ausência de entes queridos e a violência política moldaram suas narrativas, trazendo à tona a complexidade de um luto que nunca se conclui pela falta de um corpo para enterrar.
## A Literatura Como Refúgio e Resistência
Matar explicou que, por anos, acreditou que honrar a memória do pai significava buscar incessantemente por ele. Contudo, percebeu que essa busca acabava por obscurecer a própria imagem do pai que desejava preservar. A literatura, então, tornou-se o caminho para resgatar a humanidade de seu pai, devolvendo através da linguagem a identidade que a violência política tentou reduzir a um mero número.
Milton Hatoum, por sua vez, comentou sobre como as histórias de desaparecidos durante o regime militar brasileiro ressoam em sua obra. Ele destacou que a literatura tem a capacidade de dar voz onde a memória coletiva falha e a política se mostra impotente. Ambos os escritores concordaram que a força da solidariedade, do amor e da memória supera a opressão imposta por regimes autoritários.
## O Poder da Narrativa Frente à Opressão
A conversa, mediada pelo jornalista e escritor Paulo Roberto Pires, também tocou na distinção entre o artista e o intelectual público. Matar ressaltou que, enquanto o segundo tem o dever de desmantelar as estruturas de opressão, o primeiro encontra na arte uma forma de resgatar a humanidade e a dignidade de indivíduos e famílias afetadas pela violência política. A obra de Matar, inspirada em um episódio real de um protesto na embaixada líbia em Londres, onde um atirador abriu fogo contra estudantes, e a trilogia de Hatoum sobre os anos finais da ditadura brasileira, exemplificam como as feridas históricas podem ser transformadas em poderosas ferramentas de reflexão e resistência através da ficção.