Morte sem tabu: Escritoras debatem fim da vida na Flip
Médica e roteirista debatem a morte e cuidados paliativos na Flip, buscando desmistificar o tema e promover uma discussão aberta sobre o fim da vida no Brasil.

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) sediou um debate que atraiu grande público neste sábado (25), com a médica Ana Claudia Quintana Arantes e a roteirista Camila Appel. As escritoras abordaram a morte, um tema historicamente evitado, buscando desmistificar preconceitos e promover uma discussão aberta sobre o fim da vida.
## A Evolução da Discussão Sobre a Morte
Camila Appel, criadora do blog "Morte Sem Tabu", destacou a evolução significativa na forma como a sociedade trata o assunto. Ela relatou dificuldades em sua jornada de pesquisa, enfrentando ceticismo de pessoas próximas que questionavam o "tempo perdido" em um tema considerado inerentemente final. Appel compartilhou sua experiência ao visitar um necrotério para testemunhar uma autópsia, um evento que, segundo ela, ajudou a confrontar seus próprios tabus e a perceber a morte como parte integrante da vida.
Em seu livro "Enquanto Você Está Aqui", Appel narra essa investigação e discorre sobre o envelhecimento de sua mãe, a dramaturga Leilah Assumpção. A escritora admitiu ter dificuldade em lidar com a perspectiva da finitude de sua mãe, especialmente após um AVC que a deixou debilitada. Appel também descreveu um episódio traumático vivido no hospital com seu sogro, onde a falta de preparo da equipe médica e a abordagem desumanizada em relação ao paciente em estado terminal geraram um sentimento de "violência".
## Cuidados Paliativos e a Humanização do Fim da Vida
Ana Claudia Quintana Arantes, especialista em cuidados paliativos, corroborou a necessidade de uma abordagem mais humana. Ela mencionou ouvir colegas expressarem o desejo de que ninguém morresse durante seus plantões, enquanto seu próprio lema era que ninguém sofresse. Essa filosofia a inspirou a escrever obras como "A Morte é Um Dia que Vale a Pena Viver" e "Cuidar Até o Fim", livros que visam oferecer conforto e dignidade aos pacientes em seus últimos momentos.
O debate na Flip ressaltou a importância de encarar a morte não como um tabu a ser silenciado, mas como uma fase natural da existência, que requer diálogo, compreensão e, acima de tudo, cuidado humanizado. O interesse expressivo do público sugere um movimento crescente na sociedade brasileira em direção a uma maior abertura e aceitação para discutir o fim da vida.