Moacir Santos: O Maestro Que Uniu Brasil e Jazz no Centenário

Moacir Santos, maestro e compositor que fundiu ritmos afro-brasileiros e jazz, completaria 100 anos. Sua obra, marcada por álbuns como "Coisas" e "Maestro", influenciou gerações, mas ainda busca reconhecimento no Brasil.

Moacir Santos: O Maestro Que Uniu Brasil e Jazz no Centenário

O centenário de Moacir Santos, celebrado em 26 de julho, evoca a memória de um dos mais importantes, porém subestimados, músicos brasileiros. Compositor, arranjador, maestro e multi-instrumentista, Santos (1926-2006) dedicou sua carreira à inovadora fusão de ritmos afro-brasileiros com a sofisticação do jazz, uma obra que, apesar de sua riqueza, ainda busca o reconhecimento merecido no país de origem.

## A Origem e a Influência das Bandas Marciais

Nascido em Serra Talhada, no Sertão Pernambucano, Moacir Santos teve seu primeiro contato com a música através das bandas marciais locais. Ele próprio relembrava, em depoimentos recuperados, a naturalidade com que formava bandas improvisadas ainda na infância. Essa vivência com a tradição das bandas militares e de música populares, que no Brasil Império eram compostas majoritariamente por negros e serviam como o principal meio de difusão musical nas cidades, moldou sua formação inicial. Após fugir de casa na adolescência, rodou o Nordeste em orquestras de circo e bandas militares, aprimorando suas habilidades.

Ao migrar para centros maiores, como João Pessoa e, posteriormente, o Rio de Janeiro na década de 1940, Moacir Santos adicionou aos seus conhecimentos rudimentares os estudos mais aprofundados em teoria musical. Na Rádio Nacional, atuou como saxofonista e, em seguida, como arranjador, onde teve a oportunidade de estudar com o maestro César Guerra-Peixe. Sua genialidade o levou a ser professor de nomes que viriam a se consagrar na música brasileira, como Baden Powell, João Donato, Paulinho da Viola e Airto Moreira, tornando-se uma ponte essencial entre o popular e o erudito.

## A Obra-Prima "Coisas" e a Mudança para os EUA

A década de 1960 foi marcada pela consolidação de sua identidade sonora. Moacir arranjou álbuns para artistas como Elizeth Cardoso e Baden Powell, além de compor trilhas sonoras para o cinema. Em 1965, lançou "Coisas", álbum amplamente considerado sua obra-prima. Este trabalho é uma síntese de sua trajetória, integrando referências de bandas filarmônicas e jazz bands, com uma forte pesquisa na música afro-brasileira. A instrumentação e a estrutura musical de "Coisas" demonstram a maestria de Santos na fusão de elementos, criando um som único e inovador.

A canção "Nanã", que homenageia a orixá das religiões afro-brasileiras e serviu de trilha para o filme "Ganga Zumba", é um dos seus trabalhos mais conhecidos, gravada por uma vasta gama de artistas nacionais e internacionais, incluindo nomes do jazz como Kenny Burrell. Em 1967, Moacir Santos mudou-se para os Estados Unidos, onde continuou sua carreira compondo trilhas para filmes e ministrando aulas. Na década de 1970, lançou álbuns pela prestigiada gravadora de jazz Blue Note, com destaque para "Maestro", que foi indicado ao Grammy. Este álbum apresentou o "mojo", um sistema rítmico criado por Santos, que se tornou uma marca registrada de sua música, reconhecida instantaneamente pelo seu swing e originalidade.