Milton Hatoum defende ativismo intelectual na Flip 2026
Milton Hatoum discursa na Flip 2026 sobre o papel do intelectual, a importância da memória histórica e a complexidade na criação de personagens literárias.

O renomado escritor Milton Hatoum marcou presença na Festa Internacional de Paraty (Flip) de 2026, em um debate instigante com o escritor Hisham Matar e o mediador Paulo Roberto Pires. Durante sua participação, Hatoum enfatizou a responsabilidade do intelectual em se posicionar publicamente, declarando que "o intelectual não deve ficar calado, porque o silêncio é cúmplice da barbárie". Ele argumentou que indivíduos com consciência histórica e sensibilidade social têm o dever de "dizer a verdade ao poder", independentemente do contexto geográfico, seja no Oriente Médio ou no Brasil.
## A Importância da Distância Temporal e a Construção de Personagens
Hatoum também abordou a sua preferência por escrever sobre o passado, explicando que a distância temporal é uma necessidade para extrair algo da memória, que se transforma em imaginação. Ele confessou não conseguir escrever sobre o passado recente, pois considera os personagens desse período "todos horrorosos" e desprovidos de complexidade. Ao discorrer sobre sua trilogia "O Lugar Mais Sombrio", composta por "A Noite de Espera" (2017), "Pontos de Fuga" (2019) e "Dança de Enganos" (2025), Hatoum relembrou um conselho sobre a diferença entre "pessoa e personagem". Ele explicou que uma personagem não deve ser inspirada diretamente por uma única pessoa, mas sim ser uma construção mais complexa, que pode mesclar elementos de pessoas conhecidas com outros elementos imaginários para conferir profundidade e comportamento.
## Reflexões sobre Memória, Luto e Coragem
O escritor amazonense comparou-se ao narrador de sua trilogia, Martin, descrevendo-o como um personagem hesitante, cujo drama moral se concentra no sentimento de perda, especialmente a perda materna, em vez de ser um militante político explícito. Hatoum ressaltou a persistência dos desaparecidos políticos no Brasil e o impacto duradouro nas famílias, que vivem um luto não resolvido. Ele citou Guimarães Rosa para ilustrar a alternância entre medo e coragem na vida e na luta contra a opressão, concluindo que, apesar dos momentos de retração diante de adversidades, a coragem de grupos com ideais fortes é fundamental para combater a "barbárie", um fenômeno que também ocorreu no Brasil durante a ditadura militar.