Médica alerta: Dizer 'não' é ato de resistência e integridade

Livro "Ouse Dizer Não" explora como a pressão social e cultural dificulta a recusa, transformando-a em um ato de resistência e integridade pessoal.

Médica alerta: Dizer 'não' é ato de resistência e integridade

A capacidade de dizer 'não' é um ato fundamental de resistência pessoal e integridade, de acordo com a médica especialista em psicologia organizacional Sunita Sah. Em seu livro recém-lançado no Brasil, "Ouse Dizer Não", publicado pela editora Sextante, Sah defende que a sociedade nos condiciona a obedecer, levando-nos a seguir a "maré" mesmo quando nossas convicções apontam o contrário. A obra, que custa R$ 64,90 em sua versão física e R$ 39,99 em ebook, propõe que as pessoas ajam de acordo com seus próprios valores, em vez de ceder a impulsos ou à necessidade de agradar terceiros.

Sah argumenta que a ansiedade em relação à crítica alheia é uma força poderosa que molda o comportamento humano. A "incapacidade de dizer 'não' raramente é um sinal de fraqueza de caráter, mas sim o resultado de uma pressão social que muitos não aprendem a reconhecer ou resistir", explica a autora, que também é professora na Universidade Cornell.

Segundo a especialista, a tendência a dizer 'sim' frequentemente surge da tentativa de proteger a imagem do outro, numa ilusão de gentileza. No entanto, Sah classifica essa atitude como uma "transferência de custo", onde, para evitar um constrangimento momentâneo a outra pessoa, assumimos o prejuízo ou o deixamos recair sobre nós ou entes queridos.

## Desafios Culturais e Sociais

Para o contexto brasileiro, a cultura do "dar um jeitinho" e a valorização da cordialidade podem tornar o ato de recusar ainda mais desafiador. Sah aponta que culturas que prezam pela harmonia podem interpretar uma recusa como uma afronta pessoal, em vez de uma escolha legítima. "Mesmo em países que se orgulham de sua independência e pensamento livre, como os EUA e o Reino Unido, observo níveis extremamente altos de conformidade", ressalta.

A "hierarquia da desobediência" é outro ponto levantado pela autora. Ela descreve como uma ordem social, pautada por normas e estereótipos, determina quem pode se manifestar e quem deve acatar. As consequências de uma recusa não são iguais para todos os grupos sociais, evidenciando um "nível calculado de submissão para a sobrevivência", segundo Sah. O caso do ex-policial Alex Kueng, que participou da abordagem a George Floyd, é citado como exemplo. Kueng, um homem negro em uma instituição com histórico de violência e preconceito, sentiu a pressão hierárquica para agir contra seus próprios valores.

A médica diferencia a submissão por autopreservação da obediência "automática", que considera o problema central. A consciência do motivo por trás da ação é o que distingue a resistência genuína da mera conformidade. "Ouse Dizer Não" oferece um convite à reflexão sobre os limites pessoais e a coragem de agir conforme os próprios princípios, mesmo diante de pressões sociais e culturais.