Livro de Fuguet: Subversão pop contra ditadura chilena

Alberto Fuguet lança 'Certos garotos', romance que narra a juventude e a resistência cultural contra a ditadura chilena através da subversão pela cultura pop.

Livro de Fuguet: Subversão pop contra ditadura chilena

O romance "Certos garotos", do escritor chileno Alberto Fuguet, lançado em 2024 e agora traduzido para o português, mergulha na atmosfera de repressão e censura da ditadura militar no Chile, em 1986, sob o comando do general Augusto Pinochet. A obra autobiográfica utiliza a subversão através da cultura pop como forma de resistência para uma juventude que buscava escapar do regime autoritário.

## Resistência Cultural em Tempos de Opressão

Ambientado na capital chilena, o livro retrata um período marcado por toque de recolher, violência civil, exílio de opositores e desaparecimentos. Nesse cenário sombrio, festas e a cultura popular emergiram como válvulas de escape e atos de desafio. Fuguet explora como a música, a literatura, a arte e o cinema, muitas vezes subestimados pelas autoridades, tornaram-se ferramentas democráticas e libertadoras, desafiando a ideia de que a cultura pop era descartável.

A narrativa acompanha os jovens Tomás Mena, que se distancia de uma família adepta do regime, e Clemente Fabres, que sonha em deixar Santiago. Clemente, autor do fanzine "ropa/americana", que abordava música, filmes e livros, é descrito com uma beleza perturbadora, comparada à de Ian Curtis, do Joy Division. Ambos lutam para subverter a opressão, explorar novas sensibilidades estéticas e abrir espaço para o amor em um ambiente hostil.

## A Subversão através da Cultura Popular

Fuguet recria com maestria o clima de desconfiança da época, apresentando pequenas atitudes como ler ou se isolar em casa como atos de resistência. O romance foca menos na figura de Pinochet e mais nas preocupações dos personagens com a cultura popular, o rádio e a arte. A subversão circulava em fanzines clandestinos, filmes hollywoodianos como "A hora do espanto" e "Rocky IV", notícias veiculadas em jornais impressos e músicas ouvidas em fitas cassete e walkmans, com artistas como New Order, The Cure e Madonna.

Uma estação de rádio fictícia, Eclipse, comandada pelo apresentador Neón, reforça a tese de Fuguet de que o pop era um agente unificador mais atuante que o amor na promoção da união. Através de Clemente, alter ego do autor, o livro demonstra como a cultura se infiltrava pelas brechas da escuridão militar e dos tabus familiares. Fuguet comprova que, mesmo diante da opressão, a admiração por artistas como Cindy Lauper e a paixão por Spielberg ou pela Nouvelle Vague eram atos de recusa em se conformar, posicionando os personagens como homens à frente de seu tempo.