Livro de Bethânia Amaro resgata história de trabalhadoras sexuais em Salvador

Romance "Ressalga" de Bethânia Pires Amaro, apresentado na Flip, dá voz a trabalhadoras sexuais de Salvador retratadas em projeto inacabado de Jorge Amado.

Livro de Bethânia Amaro resgata história de trabalhadoras sexuais em Salvador

## Vozes Silenciadas em Salvador

A escritora Bethânia Pires Amaro destacou em sua participação na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) o resgate de um projeto fotográfico inacabado de Jorge Amado. Em 1966, o fotógrafo Flávio Damm registrou a vida em cabarés e o cotidiano de mulheres que trabalhavam na prostituição em uma área boêmia de Salvador. O objetivo era integrar essas imagens ao livro "Mulher-dama", idealizado pelo escritor baiano, mas o projeto foi suspenso devido à repressão da ditadura militar.

Bethânia Amaro ressalta a importância dessas fotografias como o único registro existente dessas mulheres, estabelecendo uma conexão direta com seu romance de estreia, "Ressalga". Na obra, a autora, que é pernambucana e foi criada na Bahia, oferece voz a essas personagens através da saga de três gerações marcadas por violências e desilusões amorosas. A narradora Flora conduz o leitor por essa jornada, desvendando as adversidades da avó no interior baiano e da mãe, uma figura cativante pela beleza e talento para contar histórias.

## O Projeto Engavetado e a Redescoberta

Segundo Bethânia, Jorge Amado teve que intervir pessoalmente para obter permissão de cafetinas para que Flávio Damm realizasse o trabalho fotográfico. Contudo, com a instauração do AI-5 e o endurecimento do regime militar, o projeto do livro foi abandonado. As fotografias permaneceram guardadas por décadas, até que em 2018 uma exposição em Salvador trouxe essas imagens à tona. A curadora Silvana Olivieri buscou resgatar a memória de espaços frequentemente marginalizados e invisibilizados.

Bethânia Amaro, que na época já residia em São Paulo, soube do projeto fotográfico durante sua pesquisa para "Ressalga". A descoberta reforçou sua convicção de que havia uma narrativa poderosa a ser contada. A Flip proporcionou uma nova plataforma para divulgar esse trabalho fotográfico e destacar o rosto de mulheres que, apesar dos abusos e do apagamento oficial, deixaram uma marca em sua geração. Suas histórias, entrelaçadas à história do Brasil e da Bahia, encontram eco no romance "Ressalga".

## Ficção e História em "Ressalga"

Com uma narrativa polifônica, "Ressalga" transporta o leitor para a Bahia do século XX, desde o interior até a efervescência da capital nas décadas de 1970. As personagens femininas vivenciam alegrias, tristezas, paixões e infortúnios. Embora seja uma obra de ficção, o enredo, que acompanha Janaína, Graça e Flora, reflete a realidade de muitas brasileiras e se conecta a períodos históricos significativos do país, como a morte de Getúlio Vargas e o período da ditadura militar.

A escritora revela que "Ressalga" surgiu do desejo de resgatar a história da Ladeira da Montanha, um local emblemático de Salvador, hoje em ruínas, mas que ainda habita o imaginário da cidade. Durante sua pesquisa, Bethânia constatou o apagamento dessas mulheres da historiografia oficial, sentindo a necessidade de construir um mosaico a partir de memórias masculinas para compreender suas trajetórias. A região era um ponto de encontro de intelectuais, artistas e figuras notórias de Salvador. A mesa de Bethânia na Flip contou também com a escritora franco-mauriciana Nathacha Appanah, cujos livros, assim como o de Bethânia, exploram as diversas formas de violência contra suas personagens.