Feira indígena celebra cultura alimentar e ancestralidade em Roraima

Feira em Roraima celebra a cultura alimentar indígena e venezuelana, destacando a culinária como pilar de identidade, pertencimento e patrimônio imaterial.

Feira indígena celebra cultura alimentar e ancestralidade em Roraima

A 15ª edição da Feira Intercultural Indígena, realizada em Boa Vista, Roraima, reuniu neste final de semana uma rica celebração da cultura alimentar, sob o tema “Culinária tradicional: Identidade e Pertencimento”. O evento, promovido pela Fraternidade – Missões Humanitárias Internacionais (FMHI), buscou aprofundar a compreensão sobre como os saberes, práticas e tradições em torno da comida moldam a identidade dos povos.

O Museu Integrado de Roraima (MIRR) apresentou uma exposição com utensílios e ingredientes que evidenciam a cultura alimentar dos povos tradicionais do estado. Destaque para a degustação de ingredientes como o café arábica, cultivado pelo povo Macuxi na região de Pacaraima, que já integra a realidade das comunidades.

Denise Rohnelt de Araujo, pesquisadora do MIRR, ministrou uma palestra sobre a relevância da cultura alimentar amazônica. Ela ressaltou a particularidade das “casas de comida” indígenas, que, segundo os criadores, não se configuram como restaurantes, mas sim como espaços de preparo e partilha exclusiva da culinária tradicional de cada povo.

A distinção entre cultura alimentar e culinária foi um dos pontos centrais. A cultura alimentar abrange o conjunto de saberes, memórias e valores associados à comida, refletindo a história e o território de um povo. Já a culinária é definida como a arte e a técnica de preparar alimentos, que, por sua vez, também narra a trajetória histórica de cada comunidade. A UNESCO reconhece os costumes alimentares como patrimônio imaterial da humanidade.

O evento contou com a presença da damorida, prato reconhecido como patrimônio cultural imaterial de Boa Vista e Roraima. Além disso, foram apresentadas comidas e temperos de povos indígenas venezuelanos abrigados na cidade, demonstrando a interculturalidade e a troca de saberes. A programação incluiu ainda pintura corporal, artesanato, molhos, doces e bebidas, além de apresentações culturais como coral infantil, danças e música de artistas indígenas.

Um molho peculiar à base de tucupi negro (kumachí), pimenta e peixe desidratado, preparado por uma indígena Pemon da Venezuela, chamou a atenção dos presentes. A intenção do evento foi reforçar a importância da preservação da identidade cultural por meio da comida, dos ingredientes e dos métodos de preparo, fortalecendo a memória, a cultura e os vínculos ancestrais.

A reflexão sobre o papel dos alimentos na manutenção da identidade e no fortalecimento do senso de pertencimento foi o fio condutor. A valorização da própria cultura, expressa através da culinária, emergiu como um pilar fundamental para a aceitação e o reconhecimento de suas origens.

Ingredientes de Roraima, como café, cacau e tucupi negro, ganharão projeção internacional no primeiro Congresso Mundial de Ciência e Cozinha da América do Sul, no Chile. Denise Rohnelt de Araujo participará com palestras e workshops, incluindo degustações para estudantes e professores, ampliando a divulgação da rica gastronomia local.