Documentário Revela Vida e Legado da Matriarca Tia Ciata

Documentário da TV Brasil reconstrói a vida e o legado de Tia Ciata, figura central na cultura negra e no surgimento do samba, explorando mistérios de sua imagem e a importância de sua casa.

Documentário Revela Vida e Legado da Matriarca Tia Ciata

Uma nova edição do premiado programa "Caminhos da Reportagem", exibido pela TV Brasil, mergulha na trajetória de Hilária Batista de Almeida, conhecida como Tia Ciata. A matriarca, figura de extrema importância para a cultura negra e para o nascimento do samba no Brasil, é o foco da atração que busca desvendar os mistérios e a grandiosidade de sua vida e legado.

Tia Ciata, originária do Recôncavo Baiano, integrou o movimento migratório de mulheres que se deslocaram para o Rio de Janeiro entre o final do século XIX e o início do século XX, um período que ficou conhecido como a "diáspora baiana". No Rio de Janeiro, ela se consolidou como uma referência religiosa, humanitária e cultural, cuja influência transcende o tempo, permanecendo relevante mais de um século após seu falecimento em 1924.

## A Imagem e a História de Tia Ciata

O documentário aborda um dos pontos de interrogação sobre Tia Ciata: sua verdadeira imagem. A historiadora Angélica Ferrarez questiona a autenticidade de uma famosa fotografia atribuída a ela, argumentando que a data em que a imagem teria sido registrada não condiz com o período em que Hilária já residia no Rio de Janeiro. Ferrarez destaca a dificuldade em encontrar um retrato definitivo da ialorixá, essencial para a compreensão de sua figura histórica.

Em contrapartida, Gracy Mary Moreira, bisneta de Tia Ciata e presidente da Casa de Tia Ciata, defende a possibilidade de a imagem ser autêntica. Ela explica que sua bisavó mantinha viagens frequentes à Bahia, onde atuava como "mãe pequena" no terreiro de João Alabá. A pesquisa para verificar a hereditariedade a partir da fotografia envolveu análises de um antropólogo forense, comparando a imagem com outras fotos familiares.

## O Quintal que Moldou o Samba e a Cultura

A casa de Tia Ciata, localizada na Praça Onze, no Rio de Janeiro, é apresentada como um centro nevrálgico para a formação cultural da cidade. É nesse espaço, no afamado quintal que abrigava o terreiro religioso e o local de manifestações musicais, que se acredita ter ocorrido a participação de Ciata no nascimento de "Pelo Telefone", o primeiro samba registrado oficialmente no Brasil, em 1916, por Donga e Mauro de Almeida.

O escritor e historiador Luiz Antônio Simas ressalta a importância da residência como um polo cultural multifacetado, abrangendo tanto a esfera religiosa quanto a música popular urbana em formação. A arquiteta Luciana Mayrink reconstitui a planta do imóvel, detalhando como as atividades religiosas e os encontros de samba coexistiam no mesmo terreno. A influência de Tia Ciata e de outras "tias" da época é comparada com a relevância atual de matriarcas como a cantora Surica, que mantém a tradição das rodas de samba em seus quintais, perpetuando o legado.

O programa também explora o patrimônio deixado por Tia Ciata. O inventário de Hilária Batista de Almeida, conservado no acervo do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, revela que quatro filhos herdaram uma quantia significativa de três contos de réis, indicando a estabilidade econômica que a família desfrutava.