Diversidade Linguística Global Pode Ter Atingido Pico Há 3.000 Anos
Estudo revela que diversidade linguística global pode ter atingido pico há 3.000 anos, com dezenas de milhares de idiomas, antes do declínio impulsionado pela era dos impérios.

A diversidade de idiomas falados no planeta Terra pode ter atingido seu ápice há cerca de 3.000 anos, um período anterior à ascensão dos grandes impérios como Roma. Nesta época, estima-se que o mundo abrigava dezenas de milhares de línguas distintas, um número significativamente superior aos aproximadamente 7.000 idiomas existentes hoje. Essa descoberta surge de modelos computacionais desenvolvidos por uma colaboração entre linguistas e cientistas de dados, cujos achados foram publicados na revista científica Science.
## Ascensão e Declínio da Diversidade Linguística
O estudo, liderado pelo físico argentino Damián Blasi da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, sugere uma trajetória em forma de montanha-russa para a diversidade linguística. O crescimento acelerado teria ocorrido após a revolução agrícola, com a domesticação de plantas e animais, que impulsionou a expansão populacional. Contudo, o declínio começou a se manifestar com o surgimento dos primeiros grandes impérios, que tenderam a unificar culturas e línguas sob um domínio central.
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores se basearam em pressupostos teóricos e dados atuais, já que um censo exato de idiomas antigos é impossível sem registros escritos extensivos, que eram escassos no período remoto. Em contrapartida, o cenário moderno é marcado pela expansão de línguas de origem europeia, como inglês, espanhol e português, além de idiomas asiáticos com grande número de falantes, como o mandarim. Atualmente, cerca de 5 bilhões de pessoas falam pelo menos uma das dez línguas mais comuns, enquanto metade dos idiomas do mundo corre risco de extinção, com aproximadamente quatro línguas desaparecendo anualmente.
## Modelagem Computacional e Evidências Antigas
A equipe de Blasi desenvolveu um modelo computacional que considera o estilo de vida de caçadores-coletores, que prevaleceu até cerca de 12 mil anos atrás. Embora houvesse variações nesse modo de vida, os autores argumentam que as semelhanças entre esses grupos e os povos modernos que ainda vivem assim permitem usar a diversidade linguística atual como base para estimativas passadas. O modelo sugere que, no início do Holoceno, com uma população global estimada em até 7 milhões de pessoas, existiam entre 4.500 e 6.000 idiomas.
O achado mais surpreendente é que a diversidade linguística parece ter aumentado após a adoção da agricultura. Essa prática, que se acreditava inicialmente levar ao domínio demográfico de certos grupos e à consequente eliminação de idiomas vizinhos, parece ter tido um efeito contrário em um primeiro momento, promovendo a diversificação. A pesquisa lança luz sobre a complexa dinâmica da evolução linguística humana e os fatores que moldaram a paisagem idiomática global ao longo dos milênios, destacando a fragilidade da diversidade linguística em face de processos de unificação cultural e política.