Didier Eribon Rejeita Rótulo de Autoficção em Novo Livro
Didier Eribon, autor de 'Retorno a Reims', lança 'Sociobiografia' no Brasil e rejeita o rótulo de autoficção, defendendo a análise social e pessoal como essência de sua obra.

O renomado escritor e filósofo francês Didier Eribon, conhecido por obras como "Retorno a Reims", rejeita categoricamente o rótulo de autoficção para descrever seu trabalho. Em "Sociobiografia", seu lançamento mais recente no Brasil pela editora Âyiné, Eribon, aos 73 anos, conversa com o repórter Geoffroy Huard e detalha o que considera uma classificação mais precisa para sua escrita: "sociobiografia".
O gênero da autoficção tem ganhado destaque com autores como Annie Ernaux e Édouard Louis, e muitos associam Eribon a essa corrente. No entanto, o autor francês, em entrevista realizada de seu apartamento em Paris, contesta essa associação. "Se você usa esse termo, quer dizer que parte do meu trabalho é ficcional, o que não é verdade", afirma Eribon, ressaltando a natureza factual e analítica de suas narrativas.
"Sociobiografia" é apresentado como um registro de entrevistas que exploram a trajetória intelectual de Eribon ao longo de meio século. Através de conversas, e-mails e videochamadas, o livro oferece um mergulho profundo no método do autor, que combina análise sociológica e reflexões pessoais para entender as influências do ambiente social na formação do indivíduo.
Em "Retorno a Reims", Eribon narra sua própria experiência de ascensão social, descrevendo sua infância em uma família da classe trabalhadora no nordeste da França e sua posterior inserção no meio intelectual parisiense. A obra, embora escrita em linguagem literária, é fundamentada em uma perspectiva sociológica, evidenciando como as condições de origem moldam as trajetórias de vida. Eribon explica que a necessidade de autoanálise o levou a uma investigação histórica e sociológica de seu próprio contexto.
O escritor relata as dificuldades enfrentadas em sua jornada, como o sotaque da classe trabalhadora que precisou "desaprender" para se adequar aos códigos sociais da elite intelectual. Ele também menciona as barreiras enfrentadas para lecionar, que o levaram ao jornalismo, e os desafios financeiros durante o doutorado, evidenciando a persistência das marcas sociais em sua vida, mesmo após a ascensão.
Apesar de outros autores celebrados pela autoficção, como Ernaux e Louis, também terem questionado essa classificação, preferindo termos como "autobiografia impessoal" ou "romance autobiográfico", Eribon se mantém firme em sua preferência pela "sociobiografia" como a descrição mais fiel de seu corpus literário e ensaístico.