Clássico Centenário: Rivalidade Portugal x Espanha Nasceu em Santos
O centenário "Clássico das Colônias" entre Portuguesa Santista e Jabaquara, em Santos (SP), celebra a rivalidade nascida em 1919 e reflete a história da imigração espanhola e portuguesa no Brasil.

A rivalidade entre Portugal e Espanha no futebol, que ganha um novo capítulo com o confronto das seleções na Copa do Mundo de 2026, tem raízes profundas e inesperadas no Brasil. Mais precisamente em Santos, litoral sul de São Paulo, onde o "Clássico das Colônias" entre Portuguesa Santista e Jabaquara celebra mais de um século de história.
O embate inaugural entre os clubes ocorreu em 6 de julho de 1919, com vitória do Hespanha Foot Ball Club (futuro Jabaquara) por 1 a 0. O Hespanha foi fundado em 1914 por imigrantes espanhóis, muitos deles galegos, com o objetivo de preservar a cultura de sua terra natal em Santos. "Essa comunidade tem como missão manter viva a cultura espanhola, principalmente falando dos descendentes que migraram para cá e seus próprios simpatizantes", explica José Dominguez Fernandez, presidente do Jabaquara.
Três anos depois, em 1917, inspirados pela criação do clube espanhol, imigrantes portugueses fundaram a Associação Atlética Portuguesa. "Muitas das pessoas que frequentam o clube fazem parte das instituições da comunidade portuguesa", afirma Frederico Barreiros, presidente da Portuguesa Santista.
Ambos os clubes foram pioneiros no futebol paulista, figurando entre os fundadores da Federação Paulista de Futebol (FPF) em 1941, ao lado do Santos FC. A história dos clubes se entrelaça com momentos marcantes do esporte brasileiro: a Portuguesa Santista cedeu o meia Argemiro para a Copa do Mundo de 1938, enquanto o Jabaquara orgulha-se de ter revelado o lendário goleiro Gylmar dos Santos Neves, bicampeão mundial em 1958 e 1962.
A mudança de nome do Hespanha para Jabaquara ocorreu em 1942, durante o governo de Getúlio Vargas, como reflexo de uma política que determinava a alteração de nomes de instituições ligadas a países do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial. O clube adotou o nome do bairro onde foi fundado.
A Portuguesa Santista também carrega em sua trajetória um episódio de forte posicionamento social. Em 1959, durante uma excursão à África do Sul, três jogadores negros da equipe foram impedidos de atuar em um amistoso por conta do regime de Apartheid. A Briosa se recusou a jogar sem seus atletas, e a partida foi cancelada, demonstrando um compromisso com a igualdade racial.
Assim, o "Clássico das Colônias" transcende o campo esportivo, sendo um espelho da formação multicultural do Brasil e das comunidades de imigrantes que moldaram a identidade de cidades como Santos.