Autores discutem criatividade e subjetividade na leitura na Flip
Katie Kitamura e Marta Pérez-Carbonell debatem na Flip a criatividade do leitor e a subjetividade da narração, defendendo que as obras literárias são construídas em colaboração.

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) sediou um debate instigante sobre a natureza da leitura e da criação literária, reunindo as escritoras Katie Kitamura e Marta Pérez-Carbonell. Em uma conversa que encerrou a programação do palco principal nesta sexta-feira (24), as autoras exploraram a ideia de que o ato de ler é intrinsecamente criativo e que nenhum narrador é completamente confiável.
## O Leitor como Coautor
Katie Kitamura, autora de "Audição" e "Uma Separação", ressaltou a importância do leitor na concretização de uma obra literária. "Um livro só é um livro com um leitor. É algo volátil, que muda de acordo com quem está lendo e de que maneira essa pessoa encontra a obra", afirmou Kitamura. Ela destacou seu interesse em escrever obras que honrassem essa colaboração, posicionando seus livros como "artefatos literários" que dependem fundamentalmente dos julgamentos e interpretações do público para adquirir sentido. A escritora americana, também professora de literatura, enfatizou que seus romances exploram a subjetividade da narração e como as narrativas podem funcionar como ferramentas de persuasão e controle, impulsionando sua busca por diferentes enquadramentos da verdade.
Marta Pérez-Carbonell, autora de "Nada Mais Ilusório", compartilhou uma visão semelhante, comparando seus romances a "salas de espelhos" que convidam o leitor a navegar por múltiplos níveis de verdade. A escritora espanhola, igualmente professora de literatura, considera que a linguagem é uma protagonista em suas obras, explorando o poder performativo da língua e a relação cíclica entre ficção e realidade. Para Pérez-Carbonell, a profundidade de suas narrativas reside em sua estrutura aberta e tateante, evitando sentenças definitivas e permitindo que o leitor desvende as complexidades como um "cubo mágico".
## Narrativas e Subjetividade
Ambas as escritoras concordaram que a subjetividade é um pilar fundamental na construção de histórias. Kitamura mencionou o interesse em como a linguagem estabelece relações de poder e a clássica pergunta "quem está contando a história?". Ela argumentou que, mesmo em narrativas aparentemente objetivas, a interpretação pessoal do contador de histórias está sempre presente. Pérez-Carbonell ecoou essa ideia, comparando a relação entre ficção e verdade a uma "cebola de camadas infinitas", onde cada leitura pode revelar novas perspectivas. A mediadora da conversa, Gabriela Mayer, jornalista do podcast "Café da Manhã" da Folha, sintetizou a discussão ao afirmar que nas obras das autoras "a gente vê o tecido, mas demora a perceber qual a trama", evidenciando a complexidade e a profundidade que desafiam o leitor a um engajamento ativo.