Autores Debatem o Medo e a Memória em Tempos de Repressão na Flip

Milton Hatoum e Hisham Matar debatem na Flip como regimes autoritários usam o medo para corroer laços e memórias, e como a literatura resiste a essa opressão.

Autores Debatem o Medo e a Memória em Tempos de Repressão na Flip

A 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) sediou um debate sobre a "pedagogia do medo" em regimes repressivos, reunindo os renomados escritores Milton Hatoum e Hisham Matar. Mediado pelo jornalista Paulo Roberto Pires, o encontro, que contou com a participação remota de Matar de Londres devido ao cancelamento de sua vinda ao Brasil, explorou as profundas conexões entre suas obras e trajetórias pessoais marcadas pela violência estatal.

## O Legado da Opressão

Milton Hatoum, autor da trilogia "O lugar mais sombrio", que narra o desaparecimento de uma mãe durante a ditadura militar brasileira, baseou parte de seu protagonista, Martim, em experiências próprias de perseguição e exílio. Ele comentou que, em períodos de ditadura, a tendência natural é o recuo diante da opressão, mas destacou a importância de grupos corajosos que lutaram contra o regime. Hatoum também abordou a diferença entre luto e melancolia, sugerindo que escritores frequentemente se tornam herdeiros daqueles cujas memórias não puderam ser expostas, preservando a história em suas narrativas.

Hisham Matar, nascido em Nova York e radicado em Londres, teve seu pai sequestrado pelo governo de Muammar Gaddafi na Líbia, desaparecendo para sempre. Seu livro "Meus amigos" narra a história de imigrantes líbios afetados pela ditadura. Matar compartilhou sua jornada pessoal em busca do pai, que por quase duas décadas definiu sua existência. Ele percebeu que a linguagem pública do aprisionamento acabava obscurecendo a memória do homem real. Para Matar, superar o horror da ditadura implica recusar que o opressor dite as regras do afeto e da memória.

## A Capacidade Humana de Resistir

Ambos os autores ressaltaram como as ditaduras tentam corroer os laços mais íntimos e a capacidade humana de amar e lembrar. Matar afirmou que as ditaduras, em última instância, falharão devido à profundidade da nossa capacidade de encontrar solidariedade, amor e acessar a memória. Ele descreveu cada ser humano como herdeiro de uma história complexa, capaz de carregar tanto a dualidade de figuras como Mussolini e Nelson Mandela, quanto de Virginia Woolf e Margaret Thatcher, questionando como nos relacionamos com essa herança.

Milton Hatoum concluiu o debate enfatizando a responsabilidade do intelectual em tempos de repressão. "O silêncio é cúmplice da barbárie", declarou, defendendo que o clamor pela verdade e pela memória é um dever inalienável diante da autoridade que impõe o medo e a censura. A discussão na Flip sublinhou a força da literatura em confrontar traumas históricos e preservar a dignidade humana contra a desumanização imposta por regimes autoritários.