Arquitetura: Entre o Horror e o Acolhimento na Flip

Escritor José Godoy e arquiteto Solano Benítez debatem na Flip sobre o poder da arquitetura em acolher ou oprimir, explorando exemplos históricos e o potencial transformador dos espaços.

Arquitetura: Entre o Horror e o Acolhimento na Flip

A dualidade da arquitetura, capaz de acolher e libertar, mas também de oprimir e confinar, foi o tema central de um debate na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O escritor José Godoy e o renomado arquiteto paraguaio Solano Benítez exploraram essa ambiguidade em uma mesa mediada pela jornalista e escritora Francesca Angiolillo.

José Godoy apresentou a perspectiva sombria da arquitetura, focando em como espaços podem ser transformados em instrumentos de sofrimento e violação de direitos. Ele citou seu livro "A Ilha do Silêncio: Terror e Genocídio na Terra do Fogo", que narra a história da Ilha Dawson, utilizada como prisão para indígenas e, posteriormente, como campo de concentração durante a ditadura chilena. Godoy destacou como o trauma colonial e a violência estatal se manifestam na configuração territorial, transformando o ambiente em um agente de dor.

Um dos exemplos abordados por Godoy foi a reforma de um antigo centro de tortura chileno, onde a manutenção de uma escada precária servia como um primeiro ato de tortura para os detentos, simbolizando a desumanização e o controle exercido pelo Estado. Para Godoy, a reflexão sobre esses espaços é uma forma de reconhecer a violência que se espalha pelo continente latino-americano.

Em contrapartida, Solano Benítez, conhecido por seu trabalho premiado e por projetar a futura sede brasileira do museu Centro Pompidou em Foz do Iguaçu, abordou o potencial positivo da arquitetura. Benítez defende que a arquitetura pode ser uma ferramenta fundamental para a melhoria das condições de vida humana, impulsionando o desejo de progresso e bem-estar. Ele comparou essa busca a elementos da cosmogonia indígena guarani, que almejavam uma "terra sem mal".

O debate ressaltou que a arquitetura não é apenas a construção de edifícios, mas a criação de ambientes que moldam experiências humanas. A forma como os espaços são concebidos e utilizados pode tanto perpetuar injustiças históricas quanto oferecer refúgio e inspiração, demonstrando o profundo impacto social e psicológico do ambiente construído.