Angela Davis critica especulação imobiliária e defende união em Paraty

Angela Davis é ovacionada na Flip, denuncia especulação imobiliária em Paraty e defende união contra capitalismo e fascismo, inspirada por intelectuais brasileiras.

Angela Davis critica especulação imobiliária e defende união em Paraty

A renomada filósofa e ativista americana Angela Davis foi calorosamente recebida na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na noite de sábado (25). O evento, que atraiu cerca de 700 pessoas, foi marcado por uma ova��ão imediata à figura de Davis, que compareceu para a conversa "América e África: uma conversa atlântica". Apesar de um breve atraso, a recepção foi efusiva, com aplausos e gritos de "rainha", demonstrando o impacto de sua presença.

Davis, uma das intelectuais mais influentes dos séculos XX e XXI e defensora do abolicionismo penal, iniciou sua participação comentando a importância da conexão atlântica e da identidade africana nas Américas, ecoando as ideias da historiadora Beatriz Nascimento. A filósofa ressaltou que, em um mundo capitalista marcado pela exploração, a busca por uma identidade mais ampla é fundamental. Ela compartilhou como a experiência de crescimento sob segregação racial a impulsionou a se identificar com lutas globais.

## Diálogos com Intelectuais Brasileiras

A conversa, mediada pela jornalista Flávia Oliveira, explorou a obra de intelectuais e ativistas negros brasileiros. Angela Davis expressou profunda admiração por Lélia Gonzalez, cujos conceitos como "América Ladina" e "amefricanidade" foram fundamentais para a compreensão das formações culturais do continente. Davis destacou a crítica de Gonzalez ao capitalismo como algo urgentemente necessário na contemporaneidade.

Ao comentar o conceito de "escrevivência" de Conceição Evaristo, que valoriza a literatura nascida da experiência negra, Davis fez uma conexão com sua própria trajetória. Ela descreveu seu período na prisão nos anos 1970, apesar das dificuldades, como um "presente" que moldou sua vida e trabalho, reforçando a importância da abolição penal e da união de pessoas para enfrentar poderes estabelecidos. A filósofa também denunciou a especulação imobiliária em Paraty, alertando para os perigos do avanço do fascismo e do capitalismo racial.

## Resistência e Violência

Davis também abordou a violência contra mulheres negras, argumentando que a violência íntima e doméstica não pode ser dissociada daquela perpetrada por agentes do Estado. Ela enfatizou que a resistência coletiva e a união entre povos, para além das fronteiras nacionais, são essenciais para combater as agendas opressoras. A forte recepção e a relevância dos temas discutidos consolidaram a participação de Angela Davis na Flip como um dos momentos mais marcantes do evento.

O evento, que também contou com a presença de escritoras como Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves, foi transmitido ao vivo, permitindo que um público ainda maior acompanhasse os debates. A participação de Davis reforça o papel da Flip como um espaço de reflexão crítica sobre questões sociais e políticas relevantes para o Brasil e o mundo.