Ana Maria Gonçalves: Literatura Negra Disputa Narrativa Nacional

Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra imortal da ABL, defende que sua literatura não é contra-história, mas sim a história oficial contada por outra perspectiva, disputando o mesmo espaço narrativo.

Ana Maria Gonçalves: Literatura Negra Disputa Narrativa Nacional

A literatura produzida por autores negros é fundamental para desvendar a persistência histórica do racismo no Brasil e para redefinir o próprio sentido da narrativa nacional. Essa é a visão da escritora Ana Maria Gonçalves, a primeira mulher negra a integrar a Academia Brasileira de Letras (ABL).

Em uma conversa em Brasília, durante o festival Julho das Pretas que Escrevem, a autora de "Um Defeito de Cor" ressaltou como obras literárias de autoria negra ampliam a compreensão social sobre o racismo e fortalecem debates como o das políticas de cotas raciais. "Livros como o meu, como o de vários outros escritores e escritoras negros, que vêm produzindo na contemporaneidade, ajudam a contar uma história para que o povo brasileiro entenda o porquê da necessidade de cotas", explicou.

## O Romance "Um Defeito de Cor"

O romance "Um Defeito de Cor", publicado originalmente em 2006, narra a saga de Kehinde, uma mulher sequestrada na África e escravizada no Brasil. Com 952 páginas, a obra é considerada um marco na literatura brasileira contemporânea e inspirou, inclusive, um samba-enredo da escola de samba Portela no Carnaval de 2024. Segundo Gonçalves, o livro oferece uma perspectiva historicamente marginalizada sobre a formação do país.

Ela compara a continuidade da opressão a trechos musicais que ecoam a história da escravidão, como em "Todo camburão tem um pouco de navio negreiro". "A gente continua sendo os corpos que estão sendo perseguidos, que estão sendo presos, que estão sendo mortos, que são contados como números e não como histórias", lamentou.

## Disputando o Espaço da História Oficial

Ana Maria Gonçalves rejeita o rótulo de "contra-história" para descrever a contribuição de sua obra e de outras escritas por negros. Para ela, "Um Defeito de Cor" é a história do Brasil contada sob a ótica de uma mulher negra, buscando ocupar o mesmo espaço que a "história oficial", majoritariamente narrada por homens brancos, sempre ocupou. "Eu quero disputar esse lugar, não me interessa a margem, não me interessa o contra, a contraproposta, a contra-história. O livro é a história", afirmou.

## Representatividade na Academia e no Mercado Editorial

A chegada de Gonçalves à ABL, na cadeira 33, é vista por ela como um passo importante, mas que não ocorreu isoladamente. Ela destaca a influência de candidaturas anteriores, como a de Conceição Evaristo, e a luta por representatividade que abriu caminho para sua eleição. "Nós somos 27% da população", lembrou, referindo-se à parcela de mulheres negras no Brasil.

Em eventos como o Festival Latinidades, a escritora tem promovido encontros com outras mulheres negras, autoras e leitoras, para discutir o impacto dessa rede no mercado literário. Ela também ressalta a longa trajetória até que mulheres negras pudessem publicar romances no Brasil, citando Maria Firmina dos Reis, autora de "Úrsula" em 1859, e apontando que, até 2006, apenas sete outras mulheres negras haviam publicado romances. "A sociedade deve pra gente esse lugar de publicar e escrever", concluiu.