Raiva online: O fenômeno da "teoria da sopa de feijão"
Fenômeno nas redes sociais onde usuários reagem com raiva a conteúdos que não se encaixam em suas vidas. Especialistas analisam o comportamento egocêntrico exacerbado pela tecnologia.

Um fenômeno peculiar tem ganhado destaque nas redes sociais: a expressão de raiva e indignação por parte de usuários quando se deparam com conteúdo online que não reflete suas próprias vidas, dietas ou limitações. Esse comportamento, popularizado como "teoria da sopa de feijão", ilustra a tendência humana de processar informações de maneira egocêntrica, mas que se tornou exacerbado pelo ambiente digital.
## A Origem da "Teoria da Sopa de Feijão"
O termo surgiu a partir de um vídeo viral no TikTok, onde uma criadora de conteúdo compartilhou uma receita de sopa de feijão vegana para aumentar os níveis de ferro durante o período menstrual. Embora muitos tenham elogiado a dica, uma parcela significativa de usuários reagiu com frustração, questionando o que fariam se não gostassem de feijão ou se não pudessem consumir o ingrediente. A criadora, que usa apenas o primeiro nome, Kara, não respondeu aos pedidos de comentário sobre o caso.
Especialistas apontam que essa reação não é totalmente nova, mas foi amplificada pelas redes sociais. A Dra. Jessica Maddox, professora associada de estudos de entretenimento e mídia na Universidade da Geórgia, explica que o comportamento "sempre existiu, mas foi muito exacerbado pelas redes sociais e se intensificou bastante nos últimos anos". A situação gerou o apelido "teoria da sopa de feijão", frequentemente associado a outros termos como "e quanto a mim?" ou "e quanto a mim?", refletindo a personalização dos feeds.
## Fatores Psicológicos e Tecnológicos
A psicóloga clínica Micheline Maalouf, que também é criadora de conteúdo, afirma que é natural ter um "processamento egocêntrico", filtrando o mundo através das próprias experiências. No entanto, ela ressalta que é fundamental não parar por aí, e que fatores psicológicos, emocionais e tecnológicos podem limitar o pensamento crítico e a empatia.
Outro exemplo citado é o de uma usuária chamada Daisey, que compartilhou em uma rede social o ritual matinal de tomar café com o marido no jardim. A publicação foi criticada por soar "privilegiada" e por implicitamente fazer com que pessoas sem jardins se sentissem inferiores. A repercussão negativa levou Daisey a apagar o post.
Maalouf também relatou ter recebido críticas após postar sobre o uso de balas azedas ou alimentos picantes para aliviar ataques de pânico. Usuários com diabetes ou pressão alta contestaram a eficácia da dica para eles, ignorando que o conteúdo não era direcionado especificamente a eles. A criadora de conteúdo Sarah Lockwood sugere que, em muitos casos, as pessoas tratam criadores como "o Google", esperando respostas universais em vez de compreender que o conteúdo é uma experiência individual compartilhada. A solução, segundo Lockwood, seria buscar informações adicionais, como pesquisar "receitas de sopa ricas em ferro" em vez de esperar que um post aleatório contenha a solução para todas as suas necessidades.