Excesso de Telas e Sobrecarga Ameaçam Relações Amorosas no Brasil
Cansaço, falta de diálogo e excesso de telas são os maiores desafios em relacionamentos no Brasil, superando a traição. Pesquisa aponta para a 'presença ausente' como vilã do amor moderno.

## Novas Dinâmicas Afetivas
O ritmo acelerado da vida moderna e a onipresença da tecnologia têm transformado os desafios enfrentados pelos casais brasileiros. Uma pesquisa recente aponta que a exaustão decorrente da sobrecarga de tarefas cotidianas, a dificuldade de comunicação e a constante distração proporcionada pelas telas de dispositivos eletrônicos se tornaram os maiores obstáculos para a manutenção de relacionamentos amorosos estáveis. Esses fatores, descritos como "presença ausente", superam em queixas a traição, que, embora ainda dolorosa, aparece com menor frequência nas reclamações dos participantes.
A terapeuta corporal Mariana Cecchetti, 44 anos, moradora de Niterói (RJ), exemplifica essa realidade ao relatar os desafios em seu casamento de 17 anos. Ela destaca que a divisão desigual das responsabilidades domésticas e a falta de prioridade para o tempo a dois, muitas vezes ofuscado pelo excesso de uso de telas, são pontos críticos. A dinâmica familiar, mesmo sem crianças pequenas, tende a consumir o espaço antes dedicado à relação, exigindo esforços conscientes para reverter esse quadro e reconectar o casal.
## Os Fatores de Desgaste
O levantamento "Raio-x da vida afetiva: como o brasileiro vive e o que quer do amor 2025–2026", conduzido pelas psicanalistas Carol Tilkian e Camila Holpert, ouviu 997 pessoas de diferentes gerações. Os resultados indicam que a sobrecarga das tarefas cotidianas foi o problema mais citado (22%), seguido pela dificuldade de diálogo (21%). A falta de tempo apareceu em 19% das respostas, e o excesso de telas em 18%. A traição, por sua vez, foi mencionada por 6% dos entrevistados.
Segundo Carol Tilkian, muitos casais operam mais como uma engrenagem eficiente para resolver questões práticas do que como um vínculo emocional forte. A lógica da produtividade invade a esfera afetiva, focando em quem leva os filhos à escola ou como gerenciar finanças, mas negligenciando a escuta e a conexão. Essa "presença ausente" gera insegurança, fazendo com que incômodos sejam interpretados como ataques, o que dificulta a busca por soluções conjuntas.
## Buscando a Reconexão
O uso excessivo de telas é apontado não apenas como um distrator, mas como um "esconderijo" que impede o olhar para o parceiro. "Todo mundo goza com sua tela na mão. Se diverte sozinho, treta sozinho, relaxa sozinho", descreve Mariana, evidenciando a perda de espaços comuns para o encantamento, o atrito saudável e o relaxamento a dois. A necessidade de "agendar" momentos para o casal e a iniciativa de um dos parceiros em reconhecer o problema e buscar mudanças são vistas como passos importantes para reverter o quadro.
O psicólogo Rossandro Klinjey reforça a ideia de que o celular funciona como uma barreira para a intimidade, tornando mais fácil focar na tela do que na pessoa ao lado que anseia por ser vista e ouvida. A pesquisa e os relatos pessoais sublinham a importância de um "letramento emocional" e de esforços conscientes para priorizar a relação em meio às demandas da vida contemporânea, buscando ativamente a reconexão e o fortalecimento dos laços afetivos.