Novas espécies de camaleões descobertas em Moçambique homenageiam cientistas

Quatro novas espécies de camaleões foram descobertas em Moçambique, homenageando Rosalind Franklin e Jane Goodall. As espécies, crípticas e de difícil acesso, enfrentam ameaças devido ao desmatamento.

Novas espécies de camaleões descobertas em Moçambique homenageiam cientistas

Pesquisadores sul-africanos anunciaram a descoberta de quatro novas espécies de camaleões do gênero Nadzikambia em Moçambique. Os répteis foram encontrados em florestas de montanha isoladas, descritas como "ilhas do céu", em uma região de difícil acesso que contribuiu para sua permanência desconhecida pela ciência por muitos anos. A descoberta foi publicada em abril deste ano na revista Vertebrate Zoology.

As novas espécies, que possuem características externas muito semelhantes às já conhecidas do gênero, são Nadzikambia franklinae, N. goodallae, N. evanescens e N. nubila. A N. franklinae foi nomeada em homenagem à química britânica Rosalind Franklin, pioneira na descoberta da estrutura do DNA. Já a N. goodallae homenageia a renomada primatóloga e ativista Jane Goodall. As outras duas, N. evanescens ("desaparecendo") e N. nubila ("nuvem"), fazem referência à condição ameaçada das espécies e ao ambiente nebuloso das montanhas onde habitam, respectivamente.

## Contexto geográfico e evolução

Cada uma das novas espécies é endêmica de um monte específico em Moçambique. O isolamento geográfico dessas populações, que remonta a aproximadamente 6 milhões de anos, permitiu que evoluíssem separadamente, dando origem a novas linhagens genéticas. As florestas tropicais, isoladas por savanas de clima mais árido, criaram barreiras naturais que impediram o fluxo gênico entre as populações de camaleões em cada "ilha" de habitat.

## Desafios na identificação

Os cientistas destacam que a dificuldade em identificar essas novas espécies reside em suas características crípticas, ou seja, a ausência de distinções visuais marcantes. Além disso, o hábito predominantemente arborícola desses camaleões, que passam a maior parte do tempo no dossel das árvores em busca de alimento, e sua excelente capacidade de camuflagem contribuíram para que permanecessem despercebidos. "Ninguém olhava de fato para cima para procurá-las. E como os camaleões se camuflam tão bem ao seu habitat, não era óbvio encontrá-los, mesmo em árvores mais baixas. Foi necessário um esforço muito grande para tentar achá-los nessas montanhas", explicou Krystal Tolley, professora de zoologia da Universidade de Joanesburgo e uma das autoras do estudo.

## Metodologia e confirmação

Para a confirmação das novas espécies, os pesquisadores analisaram 46 espécimes de Nadzikambia, tanto do Museu de Port Elizabeth quanto do Museu de História Natural de Londres. A pesquisa combinou dados morfológicos, como o número de escamas e anatomia interna, com análises genéticas de três genes nucleares e um gene de DNA mitocondrial. "É aqui que entram as ferramentas de análise de DNA. Embora possam parecer semelhantes externamente, as espécies possuem assinaturas específicas em seu DNA que são únicas de cada uma. O nível de diferença entre os genes analisados nos deixa extremamente confiantes de que são espécies distintas", afirmou Tolley.

## Ameaças à conservação

Um dos pontos cruciais levantados pelo estudo é a preocupação com a conservação dessas espécies recém-descobertas. O desmatamento acelerado em Moçambique representa uma séria ameaça aos ecossistemas únicos onde vivem os camaleões do gênero Nadzikambia, colocando em risco a sobrevivência dessas populações isoladas e geneticamente distintas.