Hobbits pré-históricos não caçavam nem usavam fogo, aponta estudo

Estudo com fósseis na Indonésia sugere que Homo floresiensis ('hobbit') não caçava, mas comia carcaças deixadas por dragões-de-komodo e não dominava o fogo.

Hobbits pré-históricos não caçavam nem usavam fogo, aponta estudo

Uma pesquisa recente, publicada na revista científica Science Advances, lança uma nova luz sobre o comportamento do Homo floresiensis, a extinta espécie humana popularmente conhecida como "hobbit". As descobertas sugerem que esses hominínios não praticavam a caça de grandes animais nem possuíam controle sobre o uso do fogo. O estudo baseou-se na análise de marcas em fósseis encontrados na caverna de Liang Bua, na ilha de Flores, Indonésia.

## Nova Interpretação do Comportamento

A equipe internacional de pesquisadores analisou ossos fósseis de Stegodon florensis insularis, um parente extinto dos elefantes que habitou a ilha. O objetivo era diferenciar as marcas deixadas por ferramentas de pedra, atribuídas ao Homo floresiensis, das marcas provocadas pelos dentes de dragões-de-komodo, predadores da época. Para isso, foi realizado um experimento com um dragão-de-komodo vivo em um zoológico, onde a carcaça de uma cabra foi utilizada para documentar os padrões de mordidas.

## Evidências nos Ossos

A comparação revelou que os dragões-de-komodo consumiam preferencialmente as partes mais carnudas das carcaças. As marcas humanas, por outro lado, foram encontradas em áreas com menos carne, indicando que o Homo floresiensis provavelmente se alimentava das sobras deixadas pelos répteis. Foram identificadas 54 marcas de corte atribuídas a ferramentas de pedra e quase o dobro de marcas de dentes de dragão-de-komodo nos fósseis de Stegodon.

## Ausência de Domínio do Fogo

Além disso, a análise dos ossos não apresentou sinais de cozimento. Vestígios que antes eram interpretados como carbonização foram identificados como manchas naturais causadas por manganês. Mais de 4 mil ossos de camundongos do sítio arqueológico também não mostraram evidências de queima. Esses achados reforçam a hipótese de que o Homo floresiensis consumia carne crua e não dominava o uso do fogo, o que desafia visões anteriores sobre sua sofisticação comportamental.

## Implicações para a Evolução

A falta de evidências de caça e controle do fogo levanta novas questões sobre a ancestralidade do Homo floresiensis. Uma hipótese é que o ancestral dessa espécie tenha se separado do gênero Homo antes do desenvolvimento dessas habilidades. Outras teorias incluem o nanismo insular, um processo evolutivo onde espécies de grande porte diminuem de tamanho em ilhas com recursos limitados, ou que descenda de uma espécie anterior do gênero Homo já de pequeno porte. A paleoantropóloga E. Grace Veatch, autora principal do estudo, destaca a importância do comportamento na discussão sobre a origem da espécie, sugerindo que ela pode ter evoluído a partir de uma população de hominínios que não dependia de estratégias complexas de alimentação.

## Um Quebra-Cabeça Evolutivo

Contudo, a posição exata do Homo floresiensis na árvore evolutiva do gênero Homo ainda é um mistério. A escassez de informações sobre hominínios antigos do Sudeste Asiático, como o Homo erectus, dificulta a definição de suas conexões evolutivas. O arqueólogo Adam Brumm, que não participou do estudo, ressalta a necessidade de mais dados para consolidar as teorias.