Dolarização no Rio: Moradores são expulsos de bairros cobiçados

Moradores do Rio de Janeiro são forçados a deixar bairros nobres e até a cidade devido à 'dolarização' e alta dos aluguéis. Buscam custo de vida mais baixo em Niterói ou bairros menos centrais.

Dolarização no Rio: Moradores são expulsos de bairros cobiçados

A crescente "dolarização" da economia do Rio de Janeiro tem provocado um êxodo de moradores tradicionais de bairros cobiçados por turistas e investidores. A escalada nos preços de aluguel e o custo de vida elevado têm empurrado os cariocas para longe das áreas mais valorizadas da Zona Sul, levando muitos a buscar refúgio em cidades vizinhas ou bairros menos centrais.

Rodrigo Gicovate, ator e servidor público de 37 anos, é um exemplo dessa realidade. Após morar em Copacabana, ele se mudou para Niterói, do outro lado da Baía de Guanabara, há dois anos. A decisão foi motivada pela dificuldade em sustentar o custo de vida no Rio, que se tornou insustentável mesmo dividindo apartamento. "Estava muito difícil pagar aluguel, contas e todo o custo de vida. Não era só a moradia. Mercado, transporte, tudo foi ficando mais caro", relata.

Rodrigo conta que desembolsava cerca de R$ 1.800 mensais em Copacabana e não encontrou opções acessíveis no Rio, com quitinetes no Centro custando a partir de R$ 2.000 a R$ 2.500. A busca por uma vida mais equilibrada financeiramente, aliada a uma tentativa de assalto perto de casa, o levou a Niterói. Lá, ele paga R$ 2.200 por um apartamento menor, mas com qualidade de vida significativamente melhor, incluindo um tempo de deslocamento reduzido para o trabalho.

Para outros, a alternativa foi permanecer na cidade, mas em bairros fora do circuito turístico e de alto valor. Matheus Borges Assis, gerente de contas de 31 anos, trocou Copacabana pela Vila Isabel, na Zona Norte, há cerca de dois anos e meio. Ele percebeu que, apesar de o aluguel ser semelhante ao de áreas mais concorridas, as condições de moradia em Vila Isabel eram superiores, com varanda e garagem.

Matheus reconhece que o novo bairro oferece menos opções de transporte e serviços, mas o custo-benefício compensou pela atmosfera mais autêntica e pela menor presença de turistas, que ele sente que dominam a Zona Sul. "A Zona Sul tem muitos turistas e pessoas de fora. Em Vila Isabel e na Tijuca, isso é bem menos perceptível", afirma.

Dados do mercado imobiliário corroboram a tendência de encarecimento. O valor médio do metro quadrado para locação no Rio de Janeiro saltou de R$ 36,1 em maio de 2023 para R$ 51,6 em maio de 2026, um aumento de 42,7%, enquanto a inflação no mesmo período foi de 14,9%. A valorização foi ainda mais acentuada em bairros como Copacabana (101,8%), Ipanema (108,3%) e Leblon (105,7%) nos últimos três anos.

A intensificação da oferta de aluguéis por temporada e a busca por imóveis por investidores estrangeiros e de alto poder aquisitivo são apontados como fatores cruciais para essa transformação, tornando a cidade cada vez menos acessível para seus moradores tradicionais.