Cidades acessíveis impulsionam autonomia e bem-estar de idosos

Estudo aponta que cidades com boa infraestrutura urbana, como calçadas seguras e transporte acessível, ajudam idosos a permanecerem ativos e socialmente conectados, mesmo com limitações físicas.

Cidades acessíveis impulsionam autonomia e bem-estar de idosos

A qualidade do ambiente urbano onde se vive tem um impacto profundo na capacidade de envelhecimento ativo e independente, revela uma pesquisa recente com mais de 5.000 brasileiros com 50 anos ou mais. O estudo, conduzido pelo Hospital Sírio-Libanês e publicado na revista Age and Ageing, da Universidade de Oxford, aponta que bairros com boa infraestrutura, como calçadas seguras e transporte público acessível, funcionam como um "compensador" para perdas funcionais associadas à idade.

A pesquisa, baseada em dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (Elsi-Brasil), analisou como características ambientais interagem com a "capacidade intrínseca" – um conceito da Organização Mundial da Saúde (OMS) que abrange mobilidade, cognição, humor, vitalidade e funções sensoriais. Os resultados são claros: idosos em bairros com melhor mobilidade urbana têm mais do que o dobro de chances de manterem uma vida social ativa, mesmo diante de limitações físicas ou cognitivas.

## O papel da infraestrutura urbana

O geriatra Márlon Aliberti, um dos autores do estudo, explica que o envelhecimento saudável vai além da ausência de doenças. "O ambiente onde a pessoa vive pode ampliar ou limitar sua capacidade de continuar ativa, socialmente conectada e autônoma ao longo dos anos", afirma. Um exemplo prático é como um ambiente que oferece travessias seguras e tempo adequado em semáforos pode facilitar a locomoção de pessoas com Parkinson, por exemplo.

Em locais com infraestrutura deficiente, apenas 12% dos idosos com maior comprometimento funcional conseguem manter altos níveis de participação social. Esse índice salta para 30% quando eles residem em áreas com melhores condições de mobilidade e acesso a serviços essenciais.

## Vulnerabilidade e equidade

O estudo também destaca que os benefícios de um ambiente urbano favorável são ainda mais pronunciados entre os grupos socialmente mais vulneráveis. Pessoas com menor renda e que vivem em regiões historicamente desassistidas por serviços públicos são as que mais se beneficiam de melhorias na infraestrutura. O medo de cair devido a calçadas precárias, por exemplo, afeta 43% dos idosos brasileiros, evidenciando a urgência de intervenções urbanas.

O gerontólogo Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil, reforça essa visão, apontando que ambientes inseguros, com falta de calçadas adequadas, iluminação e controle de poluição, impactam desproporcionalmente os mais pobres e marginalizados, limitando sua capacidade de realizar atividades físicas e manter a autonomia.