Última entrevista de médico e ex-vice-governador do Acre vira documento histórico
Última entrevista de Labib Murad, médico e ex-vice-governador do Acre, revela detalhes da medicina pioneira e da política estadual. Falecido aos 88 anos, Murad deixou um legado histórico.

A partida do médico e ex-vice-governador do Acre, Labib Murad, aos 88 anos, ocorrida nesta segunda-feira (6), confere um caráter de documento histórico à sua última entrevista concedida ao programa Bar do Vaz, em 2023. Na ocasião, Murad ofereceu um relato detalhado sobre a trajetória da medicina no Acre e os meandros da política estadual, posicionando-se como uma figura central em ambos os cenários.
Durante o diálogo com o jornalista Roberto Vaz, Labib Murad compartilhou suas memórias sobre a chegada ao estado, ocorrida há aproximadamente 55 anos. Ele aceitou o convite para atuar profissionalmente no Acre sob a condição de que um médico anestesista fosse trazido, dada a inexistência de tal especialidade em Rio Branco na época.
## Desafios da Medicina Pioneira
Murad discorreu sobre as adversidades enfrentadas pelos profissionais de saúde em um período onde os recursos para exames de imagem eram escassos, e o diagnóstico dependia fundamentalmente da experiência clínica. "Quando eu cheguei aqui no Acre, não existia ultrassom. O que se fazia era exame de fezes parasitológico, urina tipo I e hemograma. Fora isso, era só estetoscópio e batidinhas pelo corpo. A clínica era soberana. O envolvimento com o paciente era maior", relatou.
Um dos episódios memoráveis compartilhados foi a descrição de uma cesariana realizada sob a iluminação dos faróis de um veículo, após uma interrupção de energia elétrica que mergulhou a maternidade em escuridão total.
Conhecido pelo apelido "Bisturi de Ouro", Labib Murad expressou a profunda afeição que desenvolveu pelo Acre e pela prática médica. "Fiquei apaixonado por Rio Branco. Atendia cirurgia e ginecologia, esta última que demandava mais serviço", confessou.
## Trajetória Política e Reflexões
A conversa também explorou sua incursão na vida pública. Contrariando planos iniciais, Murad foi convidado pelo então governador Jorge Kalume a ingressar na política, vindo a ser eleito vice-governador na chapa de Orleir Cameli. Sua carreira política incluiu também passagens como representante do Governo do Acre em Brasília, durante a gestão de Edmundo Pinto, e como secretário estadual de Saúde no governo de Romildo Magalhães.
Na entrevista, Murad refutou categoricamente qualquer rompimento com Orleir Cameli ou participação em conspirações para destituí-lo do cargo. "O que houve foi uma tentativa de me convocar para a queda de Orleir, mas eu não queria isso. Eu só achava que, como vice, poderia influenciar o governador a resolver o problema da saúde. Politicamente, eu era um bobão", admitiu.
Ao revisitar sua trajetória, destacou a ausência de ações prejudiciais a opositores. "Nunca articulei nada contra ninguém, até porque eu não sei. Minha índole é fazer o bem. Desafio encontrar uma só pessoa nesse Acre que eu tenha feito mal", pontuou.
Ao final do diálogo, Murad ofereceu uma perspectiva sobre o cargo de vice-governador: "Não vejo tanta necessidade. Acho que vice-governador não faz falta, não".