Moradia Compartilhada: Idosos Buscam Autonomia e Companhia

Cohousings, modelos de moradia compartilhada para idosos, ganham espaço no Brasil. Buscando autonomia, companhia e qualidade de vida, a terceira idade encontra no cohousing uma alternativa aos modelos tradicionais.

Moradia Compartilhada: Idosos Buscam Autonomia e Companhia

A busca por um envelhecimento mais ativo, autônomo e socialmente conectado impulsiona o surgimento de novas soluções habitacionais no Brasil. Longe dos moldes tradicionais de condomínios, repúblicas ou asilos, o conceito de 'cohousing', originário da Dinamarca e popular na Europa e nos Estados Unidos, começa a ganhar adeptos no país. Essa modalidade de moradia combina residências privadas com espaços compartilhados, priorizando a colaboração e a convivência entre os moradores.

O modelo, que surgiu inicialmente para ser multigeracional, tem se adaptado para suprir uma demanda crescente por alternativas de moradia para idosos. A mudança nas estruturas familiares, a transição demográfica – com idosos já representando 16% da população brasileira segundo o IBGE – e a busca por maior qualidade de vida são fatores que explicam essa ascensão. O perfil do idoso contemporâneo é mais longevo e prioriza a manutenção da autonomia e do bem-estar.

## Exemplos que florescem pelo país

Um dos exemplos é o Vila Puri, em Petrópolis (RJ). Após sete anos de articulação, dez cotistas se mudarão em outubro para este cohousing 50+. "Não somos velhinhos que vão ficar tomando sopinha. Vamos morar em comunidade e trabalhar para ela", afirma Ana Cristina Figueiredo, uma das integrantes, destacando a disposição para lidar com conflitos e a diversidade de projetos entre os moradores.

Em Campinas (SP), o grupo Vila ConViver, formado há mais de uma década, busca uma vida comunitária ativa. Inicialmente composto por docentes da Unicamp, o grupo expandiu-se e hoje conta com 25 pessoas. Apesar de enfrentar desafios como o aumento de custos e a redução do espaço comum durante a negociação com a construtora, a iniciativa ressalta o valor da companhia e do aprendizado mútuo na terceira idade.

Outra iniciativa é o Cohousing Bem Viver, em Mogi das Cruzes (SP), cujas obras iniciaram este ano e têm previsão de conclusão para o fim de 2027. O projeto reunirá cinquenta pessoas em 31 casas, com custos variando entre R$ 550 mil e R$ 1,1 milhão. Ricardo Pessoa, arquiteto e um dos idealizadores, explica a necessidade de um limite de idade para garantir a energia necessária ao projeto comunitário.

No Nordeste, o Ciranda Cousing, em Glória do Goitá (PE), avança com a construção de sua quinta casa e já promove eventos e ações de voluntariado em seus espaços comuns. Em Franca (SP), Priscilla Mello trabalha na formação do Cohousing Santa Felicidade, voltado para o público 50+. Em Curitiba (PR), o Vilarejo Senior Cohousing, iniciativa impulsionada pela arquiteta Tania Kopruszinski após visitar projetos internacionais, já possui nove sócios oficiais e outros em processo de ingresso, com planos para 22 casas.

## Viabilidade e desafios do modelo

A construção de um cohousing geralmente ocorre a preço de custo, mas os valores podem se assemelhar aos de residências de médio a alto padrão, dependendo do terreno e da infraestrutura comum. Contudo, os custos mensais de manutenção tendem a ser reduzidos pela divisão de despesas e compras coletivas. O modelo se insere no crescente mercado de 'senior living', que movimenta a chamada 'economia prateada', projetada para alcançar R$ 3 trilhões até 2030. A falta de moradias adaptadas para idosos reforça o potencial de crescimento desse segmento.

Apesar do potencial, o avanço dos cohousings no Brasil enfrenta obstáculos, como a burocracia e o etarismo estrutural, que por vezes estigmatiza a moradia comunitária como um 'fim da linha'. A adaptação das propostas às diferentes realidades e necessidades dos futuros moradores, bem como a negociação com o poder público e construtoras, são etapas cruciais para a consolidação desses projetos inovadores.