Líderes sociais de diferentes etnias morrem aos 75 e 80 anos
Morrem Marcelly Malta Lisboa, ativista trans de 75 anos, e cacique Khuiusi Suyá, 80 anos, líder indígena. Ambos deixam legados em defesa de seus povos.

O Brasil lamentou, em fins de semana consecutivos, a perda de duas importantes lideranças sociais que dedicaram suas vidas à defesa de seus respectivos povos e direitos. Marcelly Malta Lisboa, referência na luta pelos direitos de travestis e transexuais, faleceu aos 75 anos em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, no sábado (4). Já o cacique Khuiusi Suyá, sobrinho do renomado cacique Raoni Metuktire e liderança indígena no Mato Grosso, morreu aos 80 anos na sexta-feira (3).
Marcelly Malta Lisboa, que nasceu em Mato Leitão (RS) em 1951, era presidente da Igualdade RS e vice-presidente da Rede Trans Brasil. Sua trajetória foi marcada pela defesa incansável da dignidade, cidadania e vida da população travesti e transexual. O Partido dos Trabalhadores (PT), ao qual era filiada, e diversas organizações LGBTQIA+ prestaram homenagens, destacando seu papel pioneiro na formulação de políticas públicas e na formação em direitos humanos, inclusive para profissionais da segurança pública. Ela foi a primeira travesti a lecionar sobre o tema para batalhões da Brigada Militar no Rio Grande do Sul. A Rede Trans Brasil ressaltou que sua partida é um golpe profundo para o movimento e que seu legado de coragem, afeto e resistência jamais será esquecido.
Comandando a aldeia Khĩsêtjê no Mato Grosso, Khuiusi Suyá foi reconhecido por sua atuação na mobilização pela recuperação do território tradicional dos Khĩsêtjê, diante do avanço da agropecuária. O Instituto Raoni destacou a parceria e o respeito mútuo entre Khuiusi e o cacique Raoni Metuktire, com quem caminhou em diversas lutas em defesa dos povos indígenas. O Instituto enfatizou que o legado de Khuiusi Suyá permanecerá vivo na memória de seu povo, inspirando novas gerações na defesa dos territórios, da cultura e dos direitos indígenas. A causa da morte de Marcelly não foi informada, mas ela possuía comorbidades e havia sido hospitalizada recentemente. Khuiusi Suyá faleceu em sua aldeia, deixando uma lacuna significativa em suas comunidades.
Ambas as lideranças, apesar de atuarem em frentes distintas, compartilhavam o compromisso com a defesa de seus grupos e a busca por reconhecimento e direitos. Marcelly Malta, que em 2021 expressou orgulho por chegar aos 70 anos, um marco para a população trans, deixa um legado de luta por inclusão em um país onde a expectativa de vida para travestis é significativamente menor. Khuiusi Suyá, por sua vez, dedicou sua vida à proteção das terras e da cultura de seu povo, em um contexto de desafios impostos pela expansão do agronegócio.
O velório de Marcelly ocorreu em Porto Alegre, com sepultamento no Cemitério Jardim da Paz. A morte de Khuiusi Suyá também gerou comoção em sua comunidade e entre organizações de defesa dos direitos indígenas. As duas perdas reforçam a importância da continuidade das lutas iniciadas por essas personalidades, que dedicaram suas vidas a causas sociais relevantes.