Brasil e EUA: Embate comercial por tarifas e disputas técnicas
Brasil enfrenta ameaças de tarifas dos EUA em discussões técnicas. Setores empresariais e acadêmicos defendem seus argumentos em Washington contra acusações de práticas comerciais desleais.

Audiências públicas em Washington, promovidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), tornaram-se palco de um debate crucial sobre as acusações de práticas comerciais injustas e discriminatórias contra o Brasil. A presença de representantes do empresariado e do meio acadêmico brasileiro tem trazido um tom técnico e fundamentado às discussões, em contrapartida à ameaça de imposição de tarifas de até 25% sobre diversos produtos nacionais, sugerida pelo governo Donald Trump.
As audiências permitiram que os setores afetados apresentassem seus argumentos. Em paralelo, o governo brasileiro mantém negociações com as autoridades americanas. A atuação conjunta entre o governo e o setor produtivo é vista como a estratégia mais eficaz para influenciar a decisão final, que, como é costume com o governo Trump, pode ter um forte componente político. Contudo, a experiência mostra que pressões e argumentos sólidos já levaram o presidente americano a recuar em ocasiões anteriores.
O USTR aponta diversas práticas brasileiras como prejudiciais aos interesses americanos. Entre elas, estão decisões judiciais consideradas arbitrárias contra plataformas digitais, o uso do Pix, que seria desfavorável a bandeiras de cartão de crédito, tarifas de importação baixas que beneficiariam outros países em detrimento dos EUA, barreiras ao etanol, e negligência na proteção da propriedade intelectual, combate à corrupção e ao desmatamento ilegal. Uma investigação separada sobre alegações de trabalho forçado também resultou na proposta de uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros.
Durante as audiências, entidades brasileiras argumentaram que o aumento das tarifas pode elevar os custos da indústria americana e gerar impacto inflacionário. Representantes de multinacionais como Coca-Cola, Nestlé, Tesla e eBay alertaram, em carta conjunta, sobre as consequências negativas para o consumidor dos EUA. No painel sobre o Pix, foi destacado que outros países, incluindo os próprios Estados Unidos e a Índia, também possuem sistemas de pagamento digital.
A disputa também ganhou contornos políticos internos no Brasil. O senador Flávio Bolsonaro compareceu às audiências, buscando reverter as tarifas, numa tentativa de dissociar-se da ação de seu irmão, Eduardo Bolsonaro, e do grupo que o apoiou junto ao governo Trump. No entanto, seu apelo para que as tarifas fossem adiadas para após as eleições americanas, visando fortalecer o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi criticado como um argumento frágil e oportunista, que mistura desespero político com oportunismo.
A expectativa é que, após o envio de documentação complementar pelas entidades brasileiras e a emissão da recomendação final pelo USTR, a questão seja definida. A defesa técnica e negociações sensatas são apontadas como o caminho mais promissor para o Brasil, em detrimento de manipulações políticas que possam prejudicar o debate e os interesses nacionais.