Bairro 'brasileiro' nos EUA vive clima de Copa e receio com imigração
Bairro de Ironbound, em Newark (EUA), celebra a Copa do Mundo com forte identidade brasileira, mas vive sob tensão devido à fiscalização de imigração intensificada pelo governo Trump.

O bairro de Ironbound, em Newark, Nova Jersey, nos Estados Unidos, pulsa em verde e amarelo durante a Copa do Mundo, exibindo bandeiras brasileiras e portuguesas em janelas e vitrines. A atmosfera vibrante, com músicas latinas e camisas de diversas seleções, reflete a rica tapeçaria multicultural da região, que abriga imigrantes há quase dois séculos.
José Moreira, proprietário de cinco restaurantes locais, celebra o aumento do movimento. "Em todas as Copas que eu estou aqui, em todos esses 38 anos, essa superou todas", afirma, destacando o impacto positivo para o comércio. Ironbound é lar de comunidades portuguesas, brasileiras, cabo-verdianas e equatorianas, entre outras, com cerca de dois terços de seus moradores nascidos no exterior.
## Um Histórico de Imigração e Mudanças
Desde 2025, contudo, o bairro carrega o estigma de ser alvo prioritário de fiscalização de imigração sob o governo Trump, o que gera apreensão entre os residentes. O nome "Ironbound", que significa "cercado de ferro" em inglês, remete às ferrovias que o delimitaram no século 19, época em que começou a receber imigrantes alemães, poloneses e italianos.
A comunidade portuguesa se estabeleceu fortemente a partir dos anos 1920, atraída por oportunidades de trabalho. Nas décadas seguintes, novas ondas migratórias, incluindo brasileiros fugindo da hiperinflação, cabo-verdianos e equatorianos, reforçaram a diversidade. Dados de 2022 indicam que cerca de 15 mil pessoas de ascendência brasileira vivem no condado de Essex, onde Newark está localizada, e quase metade da população de Ironbound fala português em casa.
## A Insegurança da "Cidade Santuário"
Por décadas, Newark funcionou como uma "cidade santuário", onde autoridades locais não colaboravam ativamente com a fiscalização federal de imigração, oferecendo um refúgio para indocumentados. Essa percepção de segurança, no entanto, foi abalada em janeiro de 2025, após a inclusão de Newark em uma lista de jurisdições-alvo do Departamento de Justiça dos EUA.
Três dias após a posse de Trump, agentes do ICE realizaram uma operação em um depósito de frutos do mar no bairro, levando três funcionários sob custódia. O prefeito de Newark, Ras Baraka, condenou a ação, marcando um momento de tensão entre a comunidade imigrante e as autoridades federais, contrastando com o espírito festivo da Copa do Mundo.