Revisão de acordo comercial pode mudar fluxo global de carne bovina

Revisão do USMCA entre EUA, México e Canadá pode alterar comércio de carne bovina. Baixa oferta nos EUA e dependência de importações abrem espaço para o Brasil.

Revisão de acordo comercial pode mudar fluxo global de carne bovina

Uma nova rodada de negociações para a revisão do Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA) está em curso, gerando expectativas de possíveis alterações no fluxo de comércio de carne bovina na América do Norte. O setor produtivo dos Estados Unidos vê na revisão uma oportunidade de fortalecer a produção doméstica, enquanto analistas apontam para a dependência americana de importações de carne, o que pode limitar medidas protecionistas mais drásticas.

## Oportunidade de Fortalecimento Doméstico?

Associações de pecuaristas independentes dos Estados Unidos, como a R-CALF USA, argumentam que negociações separadas com Canadá e México poderiam corrigir falhas herdadas do antigo NAFTA e do próprio USMCA. A entidade defende que novos acordos priorizem produtores americanos, reforcem a segurança alimentar e restabeleçam condições mais favoráveis para a indústria pecuária local. A expectativa é que as primeiras discussões bilaterais, como a entre Estados Unidos e México prevista para a semana de 20 de julho na Cidade do México, abordem temas ligados ao agronegócio.

## Realidade do Mercado e Dependência de Importações

Contudo, especialistas em mercado como Rodrigo Dutra ponderam que a atual conjuntura do setor limita o alcance de medidas restritivas. O cenário de menor oferta de gado nos Estados Unidos em décadas, aliado a uma demanda interna aquecida, torna o país dependente de suprimentos de Canadá e México. Essa dependência confere aos parceiros comerciais uma posição de barganha importante nas negociações. Projeções do USDA indicam uma nova redução na produção de carne bovina americana em 2026, mantendo a expectativa de alta nas importações.

## Impactos Globais e o Papel do Brasil

A revisão do USMCA ocorre em um momento de restrições sanitárias ao comércio de gado vivo entre México e EUA, o que tem impulsionado o México como fornecedor de carne bovina processada. Caso Washington consiga impor regras mais restritivas durante a revisão, o efeito mais provável seria uma substituição de fornecedores, e não necessariamente uma redução nas importações totais. Nesse contexto, países como Brasil, Austrália e Argentina podem ter chances de expandir sua participação no mercado americano, desde que apresentem preços competitivos.

Dados do primeiro trimestre de 2026 já apontam o Brasil como o principal fornecedor de carne bovina para os Estados Unidos, seguido pela Austrália, ambos com embarques crescentes para suprir a demanda por carne magra para processamento. A análise de especialistas sugere que a dependência americana de importações tende a moderar a adoção de políticas protecionistas mais severas no setor, apesar do discurso político. O desenho das regras comerciais para os próximos dez anos, em debate no âmbito do USMCA, pode, portanto, reconfigurar os fluxos globais de carne bovina, com potenciais benefícios para exportadores brasileiros.