Embrapa em Risco: Falta de Verba Ameaça Legado da Pesquisa Agropecuária
Relatório revela crise estrutural na Embrapa, com cortes de verba, infraestrutura precária e dificuldade em reter talentos, ameaçando o legado da pesquisa agropecuária brasileira.

Um relatório elaborado por nove pesquisadores aponta para um cenário preocupante na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), uma das maiores e mais bem-sucedidas instituições de pesquisa agrícola tropical do mundo. O estudo, intitulado “Embrapa entre o legado, o futuro e as transformações necessárias”, coordenado por Ana Célia Castro (UFRJ) e Antônio Márcio Buainai (Unicamp), alerta para a “deterioração silenciosa das capacidades” da estatal, colocando em xeque seu futuro.
## Crise Estrutural e de Gestão
O documento, resultado de um projeto do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT/PPED), destaca problemas como a construção de laboratórios sem previsão de verba para manutenção, levando à depreciação e ociosidade dos prédios. Além disso, reagentes laboratoriais para experimentos científicos estão vencendo devido à demora na tramitação de compras. A queda de 80% nos recursos destinados à pesquisa em uma década agrava a situação, com a verba nominal caindo de R$ 400 milhões em 2010 para R$ 65 milhões em 2024. O orçamento global de custeio, que inclui a manutenção de laboratórios e campos experimentais, também sofreu cortes significativos, passando de R$ 633,8 milhões em 2011 para R$ 299,7 milhões em 2025.
## Desafios na Carreira Científica e Inovação
Outro ponto crítico abordado é a estrutura da força de trabalho. A maioria dos pesquisadores está no topo da carreira, o que eleva os custos com pessoal sem uma renovação adequada dos quadros. O plano de cargos permite que muitos atinjam o teto salarial em 10 a 15 anos, criando uma rigidez que desincentiva a inovação e a progressão. Há também uma dificuldade notável em atrair profissionais especializados em áreas de alta demanda, como cientistas de dados e especialistas em Inteligência Artificial (IA), que são mais requisitados por empresas de tecnologia de ponta. Essa dinâmica, segundo os pesquisadores, inverte a lógica institucional, fazendo com que as prioridades científicas sejam ditadas pela disponibilidade de recursos externos e não por uma estratégia de Estado de longo prazo. A Embrapa também opera com plataformas de informática não integradas, gerando insegurança nos dados das pesquisas e sem uma estratégia clara para lidar com tecnologias disruptivas.
## Legado Inegável e Futuro em Jogo
Apesar dos desafios, a importância histórica da Embrapa é inquestionável. Foi através de suas pesquisas que o Brasil se consolidou como uma potência agrícola global, com a adaptação de culturas ao Cerrado e o desenvolvimento da técnica de fixação biológica de nitrogênio, que substitui fertilizantes químicos, gerando economia e reduzindo o impacto ambiental. A criação de centenas de variedades de soja e pastagens adaptadas aos diferentes biomas brasileiros aumentou a produtividade no campo em mais de 300% em três décadas. A instituição possui um dos maiores bancos de sementes da América Latina. O relatório, no entanto, sinaliza que sem uma reestruturação e investimento adequados, esse legado pode se perder.