Conflitos Globais e El Niño Elevam Custos de Fertilizantes

Guerra na Ucrânia, conflito no Oriente Médio e El Niño elevam custos de fertilizantes. Agricultores brasileiros enfrentam piora na relação de troca e competição por insumos com indústria de energia.

Conflitos Globais e El Niño Elevam Custos de Fertilizantes

O mercado internacional de fertilizantes enfrenta uma tempestade perfeita, com guerras em regiões estratégicas e os efeitos do El Niño elevando drasticamente os custos de produção para o agronegócio. O presidente da Yara Brasil, Marcelo Altieri, destacou que os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio, somados à instabilidade no Estreito de Ormuz, impactam diretamente o fornecimento de insumos essenciais como fosfato, potássio e, notavelmente, enxofre.

## Pressão nos Insumos Agrícolas

A Rússia e a Ucrânia são pilares no fornecimento global de fosfato, potássio e nitrogênio. Simultaneamente, o Oriente Médio responde por cerca de um terço da produção mundial de nitrogênio. A escalada de tensões no Estreito de Ormuz, porta de saída para petróleo e outros produtos, também comprometeu a disponibilidade de enxofre, matéria-prima crucial para fertilizantes fosfatados como o MAP. Segundo Altieri, o preço do enxofre disparou 130% desde o início dos conflitos na região.

Uma das grandes preocupações é que, diferentemente do cenário da guerra na Ucrânia, onde a alta nos preços dos fertilizantes foi acompanhada pela valorização dos grãos, agora os estoques globais de commodities agrícolas estão elevados, mas os preços não acompanharam o aumento dos insumos. A relação de troca, que mede quantas sacas de milho são necessárias para comprar uma tonelada de MAP, dobrou. Se antes eram necessárias 30 a 35 sacas, agora são exigidas 70, tornando a equação financeira para o produtor rural significativamente desfavorável.

## Competição e Adaptação

Um novo fator agrava a situação: a competição por matérias-primas entre o agronegócio e a indústria de energia. A crescente demanda por enxofre e ácido fosfórico na produção de baterias para veículos elétricos e eletrodomésticos gera uma disputa direta com o setor agrícola. Altieri alertou que a demanda de outras indústrias avança em um ritmo muito mais acelerado, provocando escassez e desequilíbrio no mercado de fertilizantes.

Diante desse cenário, a Yara Brasil tem buscado diversificar suas fontes de matérias-primas e expandir a produção em unidades localizadas fora das zonas de conflito, visando mitigar os impactos. A empresa afirma que sua estratégia de recebimento de insumos de múltiplas regiões do mundo tem reduzido seu nível de exposição em comparação a outras companhias.

## El Niño e o Futuro da Agricultura

Além das tensões geopolíticas, o fenômeno El Niño, com previsões de ser um dos mais severos das últimas décadas, adiciona mais um desafio. Altieri reconheceu a mudança climática como uma realidade e defendeu que o Brasil tem o potencial de liderar tanto na segurança alimentar quanto na solução das crises climáticas. Iniciativas como a linha Yara Climate Choice, com fertilizantes produzidos a partir de energia renovável, e a produção de amônia verde em Cubatão, a partir de biometano, demonstram o caminho para uma agricultura mais sustentável.

Os produtores rurais brasileiros enfrentam ainda preocupações com a mudança climática, o acesso ao crédito e a falta de incentivos. Altieri ressaltou a importância do agricultor como guardião do solo, mas criticou a ausência de compensações adequadas, defendendo um maior apoio governamental, similar ao oferecido em outros países, para garantir a rentabilidade e a sustentabilidade da produção nacional.